LDP: 25/MAR/12

LEITURA DIÁRIA DA PALAVRA

25/Mar/2012 (Domingo)

LEITURAS

Jeremias 31,31-34 (Livro do velho ou 1º testamento / Livros Proféticos

31Eis que virão dias, diz o Senhor, em que concluirei com a casa de Israel e a casa de Judá uma nova aliança; 32não como a aliança que fiz com seus pais, quando os tomei pela mão, para retirá-los da terra do Egito, e que eles violaram, mas eu fiz valer a força sobre eles, diz o Senhor. 33“Esta será a aliança que concluirei com a casa de Israel, depois desses dias, — diz o Senhor: — imprimirei minha lei em suas entranhas, e hei de escrevê-la em seu coração; serei seu Deus e eles serão o meu povo. 34Não será mais necessário ensinar seu próximo ou seu irmão, dizendo: ‘Conhece o Senhor!’ Todos me reconhecerão, do menor ao maior deles, diz o Senhor, pois perdoarei sua maldade, e não mais lembrarei o seu pecado”.

Salmo 51(50),3-4.12-13.14-15 (R. 12a) (Livro do Antigo ou 1º testamento / Livros Poéticos e de Sabedoria ou Sapienciais)

— 12aCriai em mim um coração que seja puro.
— 3Tende piedade, ó meu Deus, misericórdia! Na imensidão de vosso amor, purificai-me! 4Lavai-me todo inteiro do pecado, e apagai completamente a minha culpa!
— 12Criai em mim um coração que seja puro, dai-me de novo um espírito decidido. 13ó Senhor, não me afasteis de vossa face, nem retireis de mim o vosso Santo Espírito!
— 14Dai-me de novo a alegria de ser salvo e confirmai-me com espírito generoso! 15Ensinarei vosso caminho aos pecadores, e para vós se voltarão os transviados.

Hebreus 5,7-9 (Livro do novo ou 2º Testamento / Livros Didáticos)

7Cristo, nos dias de sua vida terrestre, dirigiu preces e súplicas, com forte clamor e lágrimas, àquele que era capaz de salvá-lo da morte. E foi atendido por causa de sua entrega a Deus. 8Mesmo sendo Filho, aprendeu o que significa a obediência a Deus por aquilo que ele sofreu. 9Mas, na consumação de sua vida, tornou-se causa de salvação eterna para todos os que lhe obedecem.

Evangelho Jesus Cristo segundo as palavras de são João 12,20-33 (Livro do Novo ou 2º Testamento / Livros Históricos)

Naquele tempo, 20havia alguns gregos entre os que tinham subido a Jerusalém, para adorar durante a festa. 21Aproximaram-se de Filipe, que era de Betsaida da Galileia, e disseram: “Senhor, gostaríamos de ver Jesus”. 22Filipe combinou com André, e os dois foram falar com Jesus. 23Jesus respondeu-lhes: “Chegou a hora em que o Filho do Homem vai ser glorificado. 24Em verdade, em verdade vos digo: Se o grão de trigo que cai na terra não morre, ele continua só um grão de trigo; mas, se morre, então produz muito fruto. 25Quem se apega à sua vida, perde-a; mas quem faz pouca conta de sua vida neste mundo, conservá-la-á para a vida eterna. 26Se alguém me quer servir, siga-me, e onde eu estou estará também o meu servo. Se alguém me serve, meu Pai o honrará. 27Agora sinto-me angustiado. E que direi? ‘Pai, livra-me desta hora?’ Mas foi precisamente para esta hora que eu vim. 28Pai, glorifica o teu nome!” Então veio uma voz do céu: “Eu o glorifiquei e glorificarei de novo!” 29A multidão, que aí estava e ouviu, dizia que tinha sido um trovão. Outros afirmavam: “Foi um anjo que falou com ele”. 30Jesus respondeu e disse: “Essa voz que ouvistes não foi por causa de mim, mas por causa de vós. 31É agora o julgamento deste mundo. Agora o chefe deste mundo vai ser expulso, 32e eu, quando for elevado da terra, atrairei todos a mim”. 33Jesus falava assim para indicar de que morte iria morrer”.

COMENTÁRIOS

… Eu sou o CAMINHO …

Jesus me fala de seguimento. Seguir Jesus é optar pelo caminho da vida. É ser atraído por Ele e estar sempre na presença do Pai. Já nos lembraram dois caminhos. Um caminho de vida e outro de morte. “Hoje se considera escolher entre caminhos que conduzem à vida ou caminhos que conduzem à morte (cf. Dt 30.15). Caminhos de morte são os que levam a dilapidar os bens que recebemos de Deus através daqueles que nos precederam na fé. São caminhos que traçam uma cultura sem Deus e sem seus mandamentos ou inclusive contra Deus, animada pelos ídolos do poder, da riqueza e do prazer efêmero, a qual termina sendo uma cultura contra o ser humano e contra o bem dos povos latino-americanos. Os caminhos de vida verdadeira e plena para todos, caminhos de vida eterna, são aqueles abertos pela fé que conduzem à “plenitude de vida que Cristo nos trouxe: com esta vida divina, também se desenvolve em plenitude a existência humana, em sua dimensão pessoal, familiar, social e cultural”. Essa é a vida que Deus nos participa por seu amor gratuito, porque “é o amor que dá a vida” (DAp 13).

… a VERDADE …

“Conhecer a Jesus Cristo pela fé é nossa alegria; segui-lo é uma graça, e transmitir este tesouro aos demais é uma tarefa que o Senhor, ao nos chamar e nos eleger, nos confiou.” (DAp.18). Assim, invocamos as luzes do Espírito Santo, para este momento: Espírito de verdade, a ti consagro a mente e meus pensamentos: ilumina-me. Que eu conheça Jesus Mestre e compreenda o seu Evangelho. Leio atentamente o texto: Jo 12,20-33. Os não-judeus que falam com Filipe pedindo para ver Jesus, eram considerados pagãos. “Ver”, na linguagem do evangelista João, significa muito mais que ver e visitar. É estar junto, conviver, seguir. Filipe e André apresentam o pedido dos pagãos a Jesus. Este, por sua vez, em resposta, faz este magnífico discurso com frases breves, trazendo a imagem do grão de trigo, as exigências do seguimento, o anúncio de sua “hora”, a aflição que sente. Fala também de sua relação com o Pai e, até, num momento profundo faz uma pequena oração ao Pai: “Pai, revela a tua presença!” E o Pai, que está sempre presente, responde, confirmando que está aí. A multidão chega a confundir a voz do Pai com um trovão. Alguns diziam que um anjo tinha falado com Jesus. O Mestre diz, então, que “chegou a hora” e que, quando “for levantado da terra” atrairá todos a si, inclusive os considerados pagãos. Ser levantado da terra significava ser pregado na cruz. Os não-judeus, chamados “gregos” em algumas traduções, não só viram Jesus, mas também eles tiveram a certeza de que são atraídos, convocados por Jesus para o Reino.

… e a VIDA …

Senhor Jesus, a vida jorrou abundante de tua fidelidade até à morte de cruz. Possa eu beneficiar-me desta plenitude de vida.

Qual deve ser a MISSÃO em minha VIDA hoje?

Com os olhos iluminados pela luz da Palavra podemos e queremos ver Jesus no hoje, na nossa história, na nossa vida pessoal, familiar, comunitária, eclesial.

REFLEXÕES:

1 – DESEJO DE VER JESUS

Jesus, chegando a Jerusalém para a festa da Páscoa judaica, é aclamado pela multidão de peregrinos que acorrem à cidade para o cumprimento do preceito religioso de participação nesta festa. Entre estes peregrinos encontram-se gregos, os quais se dirigem a Filipe, manifestando o desejo de ver Jesus, o qual os atrai mais do que a própria festa. Jesus, na ocasião de seu batismo por João, disse a André e ao outro discípulo que o acompanhava, quando lhe perguntavam onde morava: “Vem e vê” (Jo 1,39). Depois, o próprio Filipe, que já havia sido chamado por Jesus para segui-lo, convidou também Natanael para o encontro com Jesus, com a mesma expressão: “Vem e vê” (Jo 1,46). Agora são os gregos da região de Betsaida que se empenham em ver Jesus. “Ver” significa conhecer, ter a experiência da presença e do diálogo, em um tempo de convívio e comunicação com Jesus. Filipe, diante do pedido dos gregos, vai dizê-lo a André. Filipe, bem como André e Pedro, era de Betsaida, cidade de cultura grega. Os próprios nomes de Filipe (Philippos) e André (Andréas) têm origem grega. Quando Filipe e André falam com Jesus, ele lhes responde procurando remover qualquer equívoco. Está próximo o desenlace de seu ministério de amor e dom de si, sem temer perseguições, ameaças e morte. A sua glória não é o poder e o sucesso, mas o dom total de sua vida no amor, a ser assumido também pelos discípulos. O dom da própria vida é o ato fecundo que gera mais vida, tanto naquele que se doa como naqueles que são tocados por seu amor. A vida é fruto do amor e ela será tanto mais pujante quanto maior for a plenitude do amor, no dom total. A metáfora do grão que se transforma exprime que o homem possui muito mais potencialidades do que aquelas que lhe são conhecidas. O grão que desaparece para dar lugar à planta e ao fruto é a conversão de vida. É libertar a vida de submissão e escravidão aos interesses dos chefes deste mundo e colocá-la a serviço de Jesus presente no nosso próximo. É alcançar a liberdade da vida eterna na prática do amor. Com o dom de si, novas e surpreendentes potencialidades se revelam. A morte, sem ser um fim trágico, pode ser também o começo de uma vida nova, mais plena, já neste mundo. Morrer para os limites e valores impostos por uma cultura de consumo e opressão, para viver livre na comunhão de amor e vida com os irmãos, particularmente os mais necessitados. Isto é servir Jesus, e assim se manifesta a glória de Jesus e a glória do Pai. Quem não teme a própria morte confunde o opressor poderoso, chefe deste mundo, e conquista a liberdade que tudo transforma pelo amor. Viver é dar a vida e tem-se a vida à medida que ela é dada.

2 – ATRAIREI TODOS A MIM

Os Evangelhos são coletâneas de memórias de Jesus de Nazaré, elaboradas em meio às primeiras comunidades de discípulos, principalmente aquelas vinculadas a Jerusalém, oriundas do judaísmo. Estas memórias foram surgindo de acordo com as expectativas tradicionais do Primeiro Testamento, voltadas para o messias glorioso e poderoso. Após a morte de Jesus, este messias foi projetado no Cristo ressuscitado. Em consequência, os Evangelhos, escritos algumas décadas após a morte de Jesus, interpretam sua vida sob a ótica do ressuscitado. Assim, nas falas de Jesus foram inseridas referências a sua própria morte e ressurreição. Filipe e André, bem como seu irmão Pedro, eram de Betsaida, cidade de cultura predominantemente grega, situada ao norte do Mar da Galileia. Alguns gregos, provavelmente seus conhecidos, se aproximam manifestando o desejo de ver Jesus. Evidencia-se como os gregos se interessaram em participar da vida que ele comunica. É o testemunho de que existiam comunidades de discípulos de Jesus no mundo gentílico, fora da influência do judaísmo. Jesus afirma que chegou a hora da sua glorificação. É a glória do Filho do homem (o humano), e não do messias poderoso. A glória de Jesus é sua missão levada até o fim com os frutos do anúncio e a comunicação da vida eterna (“salvação eterna”, conforme a teologia sacrifical da carta aos hebreus – segunda leitura) a todos os povos, sem restrições étnicas, nacionalistas, ou de particularidades religiosas. Os discípulos são convidados a dedicar a vida a esta missão do anúncio da esperança e à comunicação de amor e vida, que é a glória de Deus. A “lei no coração” anunciada por Jeremias (primeira leitura) é o mandamento do amor comunicado por Jesus, que une a todos e traz a paz.

3 – ATÉ QUE PONTO ASSUMIMOS O COMPROMISSO DE VIVER COMO CRISTÃOS?

Estamos quase no fim da Quaresma. Como discípulos, somos convidados a dedicar nossas vidas à missão do anúncio da esperança e à comunicação do amor e da vida, que é a glória de Deus. A “lei no coração”, anunciada por Jeremias, é o mandamento do amor comunicado por Jesus, que une a todos e traz a paz. Estamos nos dias finais desse tempo de graça para aqueles que souberem acolher o convite de Deus em considerar a “saúde” de sua vida interior. Graça, da mesma forma, para toda comunidade, pois, com certeza, muitos de nós levaram a sério a proposta de cultivar a vida interior a partir do Evangelho, que indica uma mentalidade e um modo de viver e conviver com as pessoas. Trata-se, portanto, de uma celebração especial, no sentido que somos convidados a selar, a assinar esse empenho de cultivar a vida interior na ótica do Evangelho. É hora de nos questionarmos: “Até que ponto assumimos o compromisso de viver como cristãos? Até que ponto estamos comprometidos com o plano divino de colocar o Espírito de Deus entre nós pela realização do projeto do Reino?” Em que você coloca o seu coração? Com quem estabelece relações? Fazer aliança com Deus e viver de acordo com o projeto divino faz com que as nossas relações sejam firmes e douradoras, pois se trata de uma aliança assinada com a vida, com aquilo que representa a centralidade dela: o coração amoroso de Deus Pai. Ser infiel a essa união é o mesmo que “rasgar” a vida, desperdiçá-la, perdê-la como diz Jesus no Evangelho: “Quem quiser ganhar a vida, vai perdê-la”. Quem quiser colocar, no seu coração, outro projeto que não seja o de Deus, perderá o sentido de viver. É por isso que, antes de iniciar a celebração, fazemos o ato penitencial. Colocar Deus no coração, no centro da existência pessoal, não é tarefa fácil para nenhum de nós. Em nossos dias, as situações parecem mais confusas que outrora. Somos como aqueles que estavam com Jesus e ouviram a voz divina, mas não souberam identificá-la, achando que fosse voz de anjos, trovões ou algo assim. Há tantas vozes que falam e acabam nos confundindo ao invés de nos ajudar a identificar o projeto de Deus. É preciso considerar a resposta que Jesus deu aos gregos, os quais queriam ver o Senhor para entender bem o sentido de “colocar Deus como centro da vida interior”. Se aqueles gregos queriam ver um Jesus “famoso”, “milagreiro” ou “pregador”, tiveram uma bela decepção! Jesus fala que o compromisso com o plano divino é exigente, a ponto de termos de morrer para viver de outro modo. Isso exige desapego da própria vida, assumindo a mentalidade do Evangelho, ou seja, tomando para sim um compromisso exigente e só realizável por quem tem o Espírito de Deus dentro de si. O Plano de Deus foi plenamente realizado por Jesus. Hoje, ainda continua a ser realizado pelos discípulos de Cristo que têm o Espírito Santo em seu coração, por aqueles que levam a sério a aliança assinada no dia do batismo, também por aqueles que não são cristãos “de nome”, mas assumem a mentalidade do Evangelho e fazem dele o seu modo de viver e agir. Concluo com as seguintes perguntas: O que está no centro de sua vida interior? Qual a coisa mais importante que está em seu coração? O Espírito de Deus ou uma outra mentalidade ajustada a este mundo? Vamos pensar nisso, durante essa semana, para tomar uma decisão sincera sobre nosso modo de ser cristão a partir da Semana Santa. Quaresma é tempo de preparação para a Páscoa. Duas são as atitudes fundamentais desse tempo para você e para mim: a conversão do coração e a solidariedade aos necessitados. A oração é o melhor meio para orientar a vida nesse caminho.

4 – QUEREMOS VER JESUS

Em Jerusalém, a multidão gritava: «Hosana nas alturas. Bendito seja Aquele que vem em nome do Senhor, o Rei de Israel» (cf Mc 11,10). E é acertado que se diga «Aquele que vem» porque Ele vem incessantemente, nunca nos falta: «O Senhor está perto de todos os que O invocam com sinceridade. Bendito seja o que vem em nome do Senhor» (Sl 144,18; 117,26). O Rei doce e pacífico está à nossa porta. […] Os soldados na terra, os anjos nos céus, os mortais e os imortais […] gritavam: «Bendito seja Aquele que vem em nome do Senhor, o Rei de Israel». Mas os fariseus punham-se à parte (Jo 12,19) e os sacerdotes estavam ultrajados. As vozes que cantavam louvores a Deus ecoavam sem cessar: a criação estava feliz. […] Foi por isso que, naquele dia, alguns gregos, levados por aquela magnífica aclamação a honrar Deus com fervor, se aproximaram de um apóstolo chamado Filipe e lhe disseram: «Queremos ver Jesus». Reparai: é toda a multidão que desempenha o papel de arauto e incita os gregos a converterem-se. De imediato, dois deles dirigem-se aos apóstolos de Cristo: «Queremos ver Jesus». Estes pagãos imitam Zaqueu; não sobem para um sicómoro [para ver jesus] mas apressam-se a elevar-se no conhecimento de Deus (Lc 19,3). «Queremos ver Jesus»: não tanto para contemplar o Seu rosto, mas para carregar a Sua cruz. Porque Jesus, ao ver o desejo deles, anunciou sem rodeios aos que ali se encontravam: «Chegou a hora de se revelar a glória do Filho do Homem», chamando glória à conversão dos pagãos. E deu à cruz o nome de «glória». Porque desde esse dia até hoje a cruz é glorificada; com efeito, é a cruz que ainda hoje consagra os reis, adorna os padres, protege as virgens, dá força aos ascetas, reforça os elos dos esposos, dá ânimo às viúvas. É a cruz que fecunda a Igreja, ilumina os povos, guarda o deserto, abre o paraíso.

5 – ESTABELECEREI UMA ALIANÇA NOVA: GRAVÁ-LA-EI NO SEU CORAÇÃO

1. Aproximamo-nos, a passos largos, da “Hora” grande de Jesus, da sua paixão, morte e ressurreição, em Jerusalém! Percorremos, ao longo desta quaresma, as grandes etapas da história do Povo de Deus e das sucessivas alianças. A Aliança com Noé e a sua família, a aliança com Abraão e a sua descendência, a Aliança com Moisés e o Povo de Deus. Meditávamos, no passado domingo, na fidelidade eterna de Deus ao Seu amor por nós, apesar das muitas infidelidades à aliança. E, neste domingo, escutámos há pouco, pela boca do profeta Jeremias, a promessa de uma “nova aliança”. Assim, a relação entre Deus e o seu Povo não se reduzirá mais a um contrato escrito nas tábuas da lei, mas será uma aliança inscrita no coração novo! E o coração novo é um coração purificado, recriado, renovado e transformado pelo amor de Deus e, por isso mesmo, um coração que ama, um coração que vê e «conhece a Deus», porque amado e perdoado por Ele! O coração novo é afinal a verdadeira “arca da aliança” capaz de guardar fielmente o imenso tesouro do amor!
2. De facto, sem um coração novo, nem sequer se poderá falar de aliança! Se falta o coração, a aliança com Deus não passa de um temor, de um contrato sem amor, de uma imposição exterior. Ora o Deus, que a Sagrada Escritura nos revela, é um Deus que nos ama, com a paixão de um verdadeiro amor! É um Deus que Se propõe viver em íntima e pessoal comunhão de Vida conosco. Ele não se contenta com uma relação jurídica, formal, ritualista! Deus chama-nos a viver com Ele uma relação de aliança, uma relação apaixonada, de toda a vida e para toda a vida, como aquela que une, totalmente, e para sempre, o Esposo e a Esposa, o Amado e a Amada, no encontro interminável do amor!
3. Devia surpreender e maravilhar, sobretudo aos casais aqui presentes, que a Sagrada Escritura nos apresente a história do amor de Deus pelo seu Povo, comparando-o a uma “aliança” conjugal. Na verdade, o amor entre os esposos sobressai, na Sagrada Escritura, “como arquétipo de amor por excelência, de tal modo que, comparados com ele, à primeira vista todos os demais tipos de amor se ofuscam” (cf. Bento XVI, DCE 2). Os casais, unidos pelo sacramento do matrimónio vivem o seu casamento como uma “aliança”, e não apenas como um contrato e muito menos ainda um contrato a prazo! Deste modo, na sua comunhão de vida e amor, os casais cristãos são a manifestação visível, sensível e tangível do amor de Deus, que Se entregou por nós, até ao extremo da Cruz! Entretanto lembrava-nos Profeta Jeremias, que não basta a “aliança no dedo”. Se esta «aliança» não evocar no coração, uma presença, uma Palavra, um compromisso, um Amor a que se quer ser fiel, também não servirá para nada!
4. E, por isso, os casais, na medida do seu amor fiel e fecundo, tornam-se para os seus filhos, aqueles que primeiro os guiam e levam até Jesus: não tanto, porque lhes falem d’Ele com especial sabedoria, mas sobretudo porque lh’O mostram e fazem ver (cf. João Paulo II, NMI 16),através do testemunho do seu amor fiel e fecundo! O amor conjugal deve sinalizar e evidenciar o amor de Deus, como o elo mais forte da aliança, que une casais e pais cristãos!
5. Também na tarefa educativa, os pais são chamados a refletir este amor apaixonado de Deus, que semeia, na esperança de que todo o sacrifício, por amor, dará fruto a seu tempo! Na verdade, «a educação é algo do coração e só Deus é o seu dono» (S. João Bosco). Caríssimos pais: mostrai e explicai aos filhos o significado da aliança, que trazeis no dedo anelar. Em família, escrevei no rolinho desta semana, três qualidades de cada um, lá em casa, na certeza de que «o homem bom, do bom tesouro do seu coração tira o que é bom» (Lc 6,45)!

6 – SE O GRÃO DE TRIGO QUE CAI NA TERRA NÃO MORRE, FICA SÓ. MAS, SE MORRE, PRODUZ MUITO FRUTO

Hoje a Igreja, no último trecho da Quaresma, o que nos propõe este Evangelho para ajudar-nos a chegar ao Domingo de Ramos bem preparados em vistas a vivermos estes mistérios tão centrais na vida cristã. A Via Crucis é para o cristão uma “via lucis”, morrer é um tornar a nascer, e ainda mais, é necessário morrer para viver de verdade. Na primeira parte do Evangelho, Jesus diz aos Apóstolos: «Se o grão de trigo que cai na terra não morre, fica só. Mas, se morre, produz muito fruto» (Jo 12,24). Santo Agostinho comenta ao respeito: «Jesus diz de si mesmo “grão”, que havia de ser mortificado, para depois multiplicar-se; que tinha que ser mortificado pela infidelidade dos judeus e ser multiplicado para a Fe de todos os povos». O pão da Eucaristia, feito do grão de trigo, multiplica-se e parte-se para alimento de todos os cristãos. A morte de martírio é sempre fecunda. Por isso, «os que se apegam à vida», simultaneamente, a «perdem». Cristo morre para dar, com o seu sangue, fruto: nós temos de imitá-lo para ressuscitar com Ele e dar fruto com Ele. Quantos dão no silêncio da sua vida para o bem dos irmãos? Desde o silêncio e da humildade temos de aprender a ser grão que morre para tornar à Vida. O Evangelho deste domingo acaba com uma exortação a caminhar à luz do Filho exaltado no alto da terra: «E quando eu for elevado da terra, atrairei todos a mim» (Jo 12,32). Temos que pedir ao bom Deus que em nós só haja luz e que Ele nos ajude a dissipar toda sombra. Agora é o momento de Deus, não lhe deixemos perder! «Estais dormidos? No tempo que se vos concedeu!» (São Ambrósio de Milão). Não podemos deixar de ser luz no nosso mundo. Como a lua recebe a sua luz do sol, em nós se há de ver a luz de Deus.

7 – A HORA “H” DE JESUS

Caríssimos irmãos e irmãs: O evangelho deste domingo expressa a hora de Jesus, isto é, o momento decisivo de sua vida quando no confronto com as forças opostas ao Reino de Deus, ele morre porque decide entregar sua vida: tentativas anteriores de matar Jesus foram frustradas porque não havia chegado sua hora: isso quer dizer aquele momento da entrega mais generosa de vida que o mundo já viu acontecer, ou que um ser humano ousasse fazer; pois Jesus, o Filho de Deus encarnado, se tornou um de nós, bem humano como expressou o autor da carta aos hebreus; ele fez isso por nosso amor. E, portanto, ao morrer entregou seu espírito ao Pai que o devolveu para nós. É o cumprimento da profecia de Jeremias 31: os judeus haviam feito promessas de cumprir a Aliança, mas não foram capazes de realizar isso. Agora, nós que recebemos do Espírito de Jesus, já no nosso batismo e sucessivamente na vida sacramental, temos a oportunidade de reforçar e aumentar nosso compromisso de viver a nova Aliança, selada no sangue de Jesus; e que agora foi inscrita não mais em frias tábuas de pedra, mas sim no nosso íntimo, no nosso coração. Jesus que se entregou ao Pai, na obediência, tornou-se causa de salvação para todos aqueles que lhe obedecem, conforme a carta aos hebreus. A consumação de sua vida é a entrega generosa ao Pai por nosso amor: é o Deus apaixonado por seu povo (como disse o profeta Isaías) ao ponto de morrer, sacrificando-se pela humanidade. O evangelho fala de alguns gregos recém-convertidos ao judaísmo que foram celebrar a Páscoa judaica, em Jerusalém e recorreram a André e Filipe, que talvez fossem gregos, ou ao menos tinham o nome grego, e poderiam facilitar o contato para o encontro com Jesus. Hoje a multidão dos que são salvos, gregos ou não, se encontra com Jesus porque ele mesmo prometeu que quando fosse erguido na cruz atrairia todos a Ele. É mais uma profecia que se cumpre. Nesta liturgia de hoje, aprofundemos nossa preparação para a Festa da Páscoa de Jesus, que deseja que se torne Páscoa nossa também, pois como afirmou: “desejei ardentemente comer esta ceia pascal convosco” (Lucas 22, 15). Vamos celebrar nossa Páscoa na pureza e na verdade, como cantávamos tempos atrás; afirmemos nossa disposição de servir melhor aos outros como fez Jesus, lavando os pés dos discípulos. Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!

8 – QUEREMOS VER JESUS

Estamos no quinto domingo da quaresma, nos aproximando cada vez do ponto mais alto de nossa caminhada cristã: A PÁSCOA DO SENHOR JESUS! Já podemos alargar um pouco mais nossos passos, pois já temos uma visão mais clara da vontade de Deus e das necessidades de tantos irmãos! A riqueza das leituras deste tempo de graça, nos leva a um encontro conosco mesmo e a nos entregarmos ao mistério do infinito amor do Pai! Aprendemos muito nesta caminhada de fé, mas ainda há muito que aprender, pois temos uma missão muito importante: fazer chegar aos corações sombrios, a luz que não se apaga: Jesus! Muitos querem ver Jesus, mas desconhece o caminho para chegar até Ele! E nós, que já fizemos esta experiência, temos o compromisso de nos tornar caminho, para que outros possam também vivenciar esta alegria! Conhecer Jesus, é descobrir o verdadeiro sentido da vida, é enriquecer-se preservando o coração pobre! O evangelho de hoje nos convida a pautar a nossa vida no exemplo de Jesus, assumindo a vivencia da fé com todas as suas consequências. Enquanto as autoridades judaicas tramavam a morte de Jesus, alguns gregos, pessoas de fora do convívio dos judeus, sentiram-se desejosos de ver Jesus. Eles aproximaram-se de Felipe e disseram: “Senhor, queremos ver Jesus”! Felipe convidou André e juntos, levaram o fato ao conhecimento de Jesus. Mas Jesus, ao invés de falar com os gregos, se dirige aos discípulos e prenuncia a sua volta ao Pai, o que nos leva a crer, que naquele momento, Jesus dava por encerrada a sua trajetória terrena e que a partir de então, Ele só seria conhecido por meio da cruz. Falando claramente de sua morte, Jesus, sutilmente, delega aos discípulos, a incumbência de torná-Lo conhecido, não somente pelos gregos, mas pelo mundo inteiro. O que realmente aconteceu após sua morte e ressurreição. Foi a partir daí, que Jesus tornou conhecido em todos os rincões da terra. E tudo começou com o anuncio daquela pequena comunidade fundada por Ele. Hoje, somos nós, os convocados a dar continuidade a este anuncio, principalmente com o nosso testemunho de vivencia na fé. O mundo carece de anunciadores de Jesus, pessoas íntimas Dele, que desperte no outro o desejo de conhecê-Lo. Finalizando a sua missão aqui na terra, Jesus nos adverte sobre o perigo do apego a nossa vida terrena. A sua mensagem é clara: somente quem é desapegado, desprendido, é livre para servir! É importante observarmos, que mesmo no momento derradeiro a sua morte, quando a angustia invade o seu coração humano, Jesus ainda encontra força para falar de vida, ao se referir sobre os frutos que seriam produzidos com a sua morte. No caminho para a cruz, Ele nos fala que uma semente só produz frutos, quando cai na terra e morre. Jesus fala de si mesmo, da sua própria morte, Ele é a semente que morrerá na terra para produzir frutos! Uma semente quando não plantada na terra, permanece bonita, intacta, mas não produz frutos! Assim somos nós, quando resguardamos a nossa vida, podemos até nos sentir protegidos de muitos perigos, mas não nos sentiremos realizados, pois não produziremos frutos de amor aqui na terra! O primeiro passo de um seguidor de Jesus, consiste em renunciar a si mesmo, em deixar de lado, projetos pessoais, para que o Reino de Deus se torne prioridade absoluta na sua vida de discípulo. A opção pelo Reino, não pode subordinar-se a nenhuma outra. Por isso, o verdadeiro discípulo deve apresentar-se a Jesus completamente livre de qualquer apego. Quem apega a sua vida, não se esvazia de si mesmo, pois o apego escraviza. Uma pessoa apegada a sua vida, não se abre ao amor, não enxerga a necessidade do outro e assim, vai se desvinculando do evangelho. FIQUE NA PAZ DE JESUS!

9 – QUEM SE APEGA À SUA VIDA, PERDE-A

”Aquele que vem de cima é superior a todos. Aquele que vem da terra é terreno e fala de coisas terrenas. Aquele que vem do céu é superior a todos.” Caríssimos irmãos: já repararam como somos apegados a esta vida e às suas coisas? O medo da morte é um exemplo disto. Pode ser uma pessoa idosa, com quadro de saúde terminal. Mesmo assim, não consegue se entregar a Deus. Ás vezes é pelo medo de não saber ao certo para onde vai. O zelo exagerado que dedicamos aos nossos pertences, nossos bens materiais, às vezes nos torna ridículos. Lembra daquele comercial que mostra o marido muito preocupado com a demora da esposa que saiu de carro, e quando finalmente ela chegou, ele corre e vai examinar o seu querido veículo com tanto carinho que quase o abraça, e nem olhou para a esposa? Somos assim, somos deste mundo, agarrados a ele com todas as nossas forças. Preocupados ao extremo com os bens materiais ao ponto de deixar de lado as coisas de Deus, alegando que é por causa da sobrevivência, esquecendo-nos das palavras do Mestre: “Busque o reino de Deus em primeiro lugar e todo o resto Ele te dará de acréscimo”. Irmãos, experimentemos fazer isto. Pois isso não falha! Dedique-se com total entrega ao serviço de Deus e você verá que todo o restante de sua vida vai fluir naturalmente, maravilhosamente, ao ponto de sua “taça transbordar”. Não seja mesquinho(a) na hora da coleta. Dê um pouco mais que umas moedinhas e verás que Deus vai recompensar você. É claro que precisamos de abrigo, transporte, e de nos apresentar de preferência bem vestidos, etc. Mas usemos o que temos com desapego. Use o seu carro como se não o estivesse usando, em vez de usá-lo como se o estivesse adorando. Se for preciso daremos a nossa vida pela causa missionária, por causa do reino de Deus, pois “Quem perde a sua vida ganhá-la-á”. É bom aproveitar e saborear todos os momentos de nossa vida, pois o momento presente, é a única coisa que temos a certeza de possuir. O carro, a casa e tudo mais ficarão na terra. Só temos o momento presente. O ontem já passou, e o amanhã não sabemos se virá para nós. Portanto, viva hoje como se fosse morrer amanhã, e aprenda como se fosse viver para sempre. Ame as pessoas que lhe cercam como se fosse o seu último dia de vida. E estude, principalmente a palavra de Deus, como se você fosse viver para a eternidade.

10 – AGORA ESTOU SENTINDO UMA GRANDE AFLIÇÃO

“se um grão de trigo não for jogado na terra e não morrer, ele continuará a ser apenas um grão. Mas, se morrer, dará muito trigo.” Jesus está nos dizendo neste domingo, que se Ele não passasse pelo sofrimento e pela morte de cruz e não tivesse ressuscitado, o mundo não o teria conhecido, não o teria reconhecido como o Filho de Deus, e nem teria acreditado Nele. Deus Pai amou tanto o mundo que abriu mão do seu próprio Filho, o qual também abriu mão da sua própria vida, pela nossa salvação. Mais infelizmente, ainda hoje temos muitos que não o reconhecem, que não o aceitam, que não o escuta, que não conhecem ou não acreditam nos seus mistérios. E isso é responsabilidade nossa. Pois é aí que entra a nossa parte, a nossa participação na construção do Reino de Deus, seja pela catequese direta ou indireta. Na catequese direta, nós, os escolhidos, vamos ensinar a palavra de Deus aos catecúmenos. Pela catequese indireta, vamos levar Cristo ao mundo, começando pelos nossos familiares, através do nosso exemplo, do nosso testemunho. Então, ao saber que a maior parte da humanidade vive sem Deus, isso aumenta a nossa responsabilidade. Não podemos ficar de braços cruzados, não podemos levar a nossa vidinha de cristão beato, uma vida de oração, de eucaristia, porém, não passamos disso. Ficamos só aí, sem fazer nada no sentido de compartilhar a nossa fé com os demais irmãos. É maravilhosa esta união com Deus, porém isto só não basta. É preciso evangelizar de alguma forma! É preciso ter em mente que não nos salvaremos se não tivermos uma fé completa como Jesus nos afirmou: uma fé na qual estamos ligados a Deus e ao próximo. “Quem ama a sua vida não terá a vida verdadeira”; Essa é a pura verdade. Sem desprendimento de nós mesmos, sem uma atitude prática de entrega, sem uma vida compartilhada, sem uma vida de dedicação, de preocupação, de ajuda ao irmão, nossa vida não será uma vida verdadeira. Jesus entregou a sua vida por nós. Para imitá-lo, teremos de pelo menos, ter uma vida voltada para Deus e para as necessidades do próximo. Uma vida sem egoísmo, uma vida empenhada na ajuda e na salvação do nosso irmão, da nossa irmã. Pois quem não se apega à sua vida de forma exagerada e egoísta, ganhará para sempre a vida verdadeira que é a vida eterna. “Quem quiser me servir siga-me;” E seguir Jesus, é falar e fazer o que Ele fez. Amar como Jesus amou, sorrir como Jesus sorriu, ser justo como foi Jesus, entregar a sua vida pela causa do Reino como Jesus entregou, etc., etc. E além da recompensa da Vida Eterna, teremos a grande honra que nos foi prometida por Jesus: “E o meu Pai honrará todos os que me servem.” Prezados irmãos. Não vamos servir a satanás, nem às sugestões enganosas dessa vida mentirosa, dessa vida moderna. Vamos servir somente a Jesus e aos nossos semelhantes. Amém.

11 – MORRER PARA FRUTIFICAR

Capitão Tininho era o nome de um grão de feijão, que certa ocasião usei como cobaia, na minha adolescência, para saber como era o desenvolvimento das plantas. Na minha fantasia, o Capitão Tininho retrucou, mas eu o convenci de que ele iria se tornar um herói, e poderia até quem sabe, reescrever a “Viagem ao Centro da Terra”, na visão de um grão de Feijão, e então ingenuamente ele aceitou. Ainda fantasiando, cavei um buraco, fiz um belo discurso para a “tropa” reunida ali, e aplaudimos o Capitão Tininho, que coloquei com carinho no buraco e jogamos a terra por cima. Todos os dias eu regava e revolvia a terra até que em uma manhã surgiu um brotinho quase invisível, fiquei eufórico, era como se estivesse nascendo um filho. Quando finalmente o pezinho de feijão estava “espigadinho” inclusive com algumas folhas, reuni a “tropa”, na minha fantasia, e começamos aquilo que eu chamei de “Operação retorno”, mas cadê o coitado do Capitão Tininho? Examinei cuidadosamente a raiz do meu pé de feijão, e não tinha nem vestígio do meu herói, de noite comentei com um colega na aula de ciência, que sorriu e me explicou friamente que o Capitão Tininho tinha “esticado a canela”. Não entendendo perguntei: ”Você quer dizer que ele morreu?”. E o colega esclareceu que se o Tininho não tivesse morrido, eu não teria o meu pé de feijão. Ainda na minha fantasia, no outro dia reuni a tropa e comuniquei oficialmente o ocorrido “Ele morreu como um herói, nessa missão perigosa” – disse em meu discurso, dando assim por encerrada a minha experiência, concluindo que no ciclo das plantas, senão houver morte, a vida não terá continuidade. Por isso, no primeiro contato com esse evangelho, quando ministro da palavra, nos anos 80, comentei com meus botões “Eis aqui mais um Capitão Tininho”, referindo-me ao grão de trigo da parábola que Jesus contou em Jerusalém, praticamente às vésperas da sua paixão e morte. Qualquer criança em idade escolar, bem cedo irá aprender que a semente morre nas profundezas da terra, para poder brotar nova plantinha. Mas na dimensão teológica, como poderíamos interpretar esse ensinamento de Jesus, o que significa morrer, nesse sentido? Eu diria que a morte de Jesus teve início com a sua encarnação, pois no paraíso, o homem sentiu-se tão importante que teve a pretensão de ser o Deus – Todo Poderoso, conhecedor do Bem e do Mal, e senhor de todos os seus atos, enquanto isso, para iniciar a obra da salvação, o Deus Todo Poderoso se fez tão pequeno, que se tornou homem. Essa pequenez de Jesus está diretamente ligada à sua missão – eu vim para servir. Poderíamos até afirmar que pequeno, é todo aquele que serve, é aquele que sabe partilhar com os outros, aquilo que tem inclusive os carismas. Na teologia judaica, a glorificação divina estava reservada aos justos, que no pós morte seria levantados por Deus para nunca mais morrerem. Ora, todas as personalidades bíblicas do A.T são uma prefiguração de Jesus e em alguns gêneros literários, como os evangelhos, por exemplo, encontramos em Mateus uma relação mais direta de Jesus com Moisés. Com a Salvação, Jesus insere de novo o homem na plenitude original do paraíso, sendo esse o anúncio que ele faz aos discípulos no evangelho desse quinto domingo da quaresma, com a afirmativa própria de João de que “Chegou a hora em que o Filho do homem vai ser glorificado”. Quando o homem busca a santidade e a perfeição em todas as suas ações e pensamentos, manifestando fidelidade ao projeto de Deus, revelando o amor ágape em suas relações com o próximo, a glorificação não é simplesmente um prêmio divino, por ele ter sido bom, mas é o resgate perfeito da imagem original de cada ser humano, enquanto imagem e semelhança de Deus, é a volta do Filho pródigo à casa do Pai, recuperando a dignidade perdida com o pecado. Esse processo aconteceu primeiro com Jesus de Nazaré, chamado nas cartas paulinas de primogênito de todas as criaturas e embora não tivesse nele nenhum pecado, ao receber a glória, também glorificou o Pai, que agora poderá olhar o homem realmente como Filho, e restabelecer com ele uma vida de comunhão, para comunicar a sua graça. É este precisamente o caminho do cristão, não há nenhum outro, é o mesmo caminho de Jesus, o caminho do serviço, do amor ágape, da doação, da fidelidade ao Pai, do despojamento e do esvaziamento, e tudo isso significa “morrer” para si mesmo, ou deixar-se morrer para que o irmão seja bem servido e tenha mais vida. A comunidade é o lugar ideal para se viver a vocação do grão de trigo, morrer para atingir a plenitude, uma linguagem e um ensinamento estranho, para uma sociedade onde ainda prevalece, em todos os segmentos, a famosa Lei de Gerson…

12 – MORREREMOS NA TERRA PARA VIVERMOS NO CÉU

Na busca incessante do amor do Pai descobrimos o quanto é maravilhoso fazer parte da família abençoada de Deus. Nada se compara a dedicação do Nosso Pai para com seu povo. Ele foi grande e fraternoso na dedicação com olhar penetrante de um guardião. Ele quis e deseja a felicidade integral de todos. Para conhecer por dentro de quão maravilhoso foi a cumplicidade do Criador para com sua criatura, faz-se necessário atitudes arrojadas, como diz no Evangelho: é preciso morrer para o mundo terreno para viver no Cristo, caso não morra para as coisas supérfluas, não conhecerá a vida eterna em plenitude. Enquanto os filhos de Deus permanecem apegados ao mundo materialista, complexo e dividido, as portas do céu não serão abertas na totalidade. Para tanto, o despojamento é imprescindível para que a semente seja destruídas na terra com a finalidade da germinação perfeita. Assim, o arbusto crescerá, florirá e produzirá frutos de boa qualidade. Deus fez aliança com o povo que sofria no Egito. Ele pegou pelas mãos e encaminhou para um lugar seguro. Caminhou com seu povo em todos os segmentos das dificuldades. Moisés foi o grande líder, sentiu as dores e pediu socorro para aliviar as tensões. O Senhor nunca deixou de lado seus filhos amados. Esteve presente em todos os momentos. Na aliança firmada com o povo escravo do Egito firmava a confiança e a dedicação no Deus que dá a vida e salva. Este Deus colocou todas as esperanças no cumprimento e do acordo: seguir o Deus da vida e do amor. Mas nem tudo foi cumprido. O povo salvo da escravidão revoltou contra o Senhor salvador. Dividiu em Israel e Judá. Criou suas inovações a partir de suas necessidades e esqueceu-se do Senhor teu Deus e Pai de Bondade. Na arrogância do viver-bem distanciava da aliança e tentou imprimir sua força terrena. Entretanto, o Senhor não desanimou do seu povo ao quebrar a aliança e afirmou segundo o profeta Jeremias: ”imprimirei minha lei em suas entranhas e hei de inscrevê-la em seu coração; serei seu Deus e eles serão meu povo” (Je 31, 33). A persistência com o povo desgarrado foi a marca do Senhor para conter a ímpeto malcriado de uma legião que no passado foi salva do tronco e da brutalidade. Assim, ao imprimir as leis no coração de cada um, passará a conhecer de perto o verdadeiro significado da vida e humildemente o Senhor finalizou: perdoarei sua maldade, e não mais lembrarei o seu pecado”. (Je 31, 34). Não tem ensinamento maior do que o perdão. Ele transfigura no ser de Deus e faz o cristão mais íntimo ainda do criador. Perdoar as maldades ou as atrocidades cometidas e ser persistente, elevando a lei no coração infiel, demonstram o quanto o Senhor aplaude as vicissitudes de seus amados. Contudo muitos cristãos de hoje ainda não encontraram e não sentiram a lei do Senhor em seus corações. Pelas atitudes maldosas, ações interesseiras e desamor com o outro confirma a falto do ensinamento do Evangelho. O mundo dos cristãos consome vivos os filhos de Deus para engrandecer pelas conquistas terrenas. Mata o irmão por notar que está atrapalhando seus privilégios, não expressa sentimentos de misericórdia e nem da solidariedade. Todavia, para selar a aliança com seu povo e amolecer o coração do homem pecador Deus enviou seu filho para a terra. Jesus em missão, percebendo a insensatez no coração maldoso do homem dirigiu súplicas àquele que era capaz de salvá-lo da morte. Claro que foi ouvido, pois o Senhor retamente atende as aflições de quem o pede. O atendimento foi possível porque Jesus foi um filho obediente. Entendeu que para ser acolhido seria necessário uma ínfima ligação com o Pai. Seus preceitos de glórias e bondade estariam disponíveis para quem deles seguissem com carinho. Portanto, Jesus foi um filho amoroso com o Pai e dele aprouve-lhe todo o bem. O que impede alcançar a salvação da alma são os interesses alheios às coisas de Deus. O homem vivia no pecado, cada um pensava ser mais poderoso do que o outro, não se contentava com o disponível para o viver e, para tal, buscava a satisfação nas ilusões da vida. Tanto foi na época de Jesus como hoje. Enquanto consegue subtrair comodidade de suas ações nem dá bola para Deus, mas basta a casa desabar em sua cabeça que o pedido de socorro não demora. Lembra de Deus nas ocasiões mais dramáticas, cobra de Deus urgência nos pedidos e, caso não aconteça na forma que pediu, revolta-se, fala mal e briga com o Pai. Ao entrar no desespero para não perder tudo, atira-se para todo lado, inclusive passa acreditar em soluções imediatistas sem precedentes. Que complicação! Caros leitores, as coisas de Deus são boas, mas para entrar na sua magnitude é preciso desfazer de muitas cosas. Veja no Evangelho de João. Jesus estava em Jerusalém pregando no Templo durante a festa dos judeus. Alguns queriam falar com ele, inclusive pagãos da Grécia e veja que lições ganharam: “se um grão de trigo não for jogado na terra e não morrer, ele continuará a ser apenas um grão. Mas, se morrer, dará muito trigo. Quem ama a sua vida não terá a vida verdadeira; mas quem não se apega à sua vida, neste mundo, ganhará para sempre a vida verdadeira. Quem quiser me servir siga-me; e, onde eu estiver ali também estará esse meu servo. E o meu Pai honrará todos os que me servem”. Jesus propõe atenção para as coisas do Pai, nada adianta querer acumular e viver na vida terrena e perder a vida no Cristo Ressuscitado. Este período em que o homem vive na terra é pequeno demais em comparação com a vida no céu. A eternidade feliz se constrói no dia-a-dia e, para tanto, é preciso morrer para esta vida. Assim como o grão de trigo deve ser jogado na terra para morrer, o homem precisa morrer na terra para viver na vida consagrada com Deus. Sabias palavras de João. Ele está convencendo sua comunidade a desgarrar do mundo material para voltar a Deus. A felicidade do homem não está nos apegos das coisas palpáveis, mas está no mundo metafísico da fé. Para tanto, a fé é um instrumento importante para acreditar que Jesus foi o compromisso do Senhor com o povo escolhido que veio trazer a libertação e vida para aqueles que ainda não conheciam. A passagem de Jesus na terra não foi por acaso. Ele tinha um objetivo, não morrer na cruz, mas conduzir seus irmãos para um caminho da paz. A cruz foi a extensão do seu amor e exemplo de dedicação. Precisava morrer da forma violenta para o povo compreender a proposta da salvação. Tem-se aí o grão de trigo morrendo para garantir a vida em plenitude. Como entoa o salmista: “criai em mim um coração que seja puro, dai-me de novo um espírito decidido. Ó Senhor, não me afasteis de vossa face, nem retireis de mim o vosso Santo Espírito”. (Sl 50) Tende piedade Senhor porque vosso povo precisa de compaixão e espírito decidido renovado para afastar todos os males que vos perturbam. Mas não adianta só desejar e pedir, faz-se necessário agir, fazer algo, movimentar-se para estar em consonância com Deus. Portanto, neste dia do Senhor, pedimos corajosamente a conversão, ou seja, a vontade de mudar da vida em pecado para a vida na fé e no compromisso com o projeto de libertação de Jesus. O querer sozinho não vai adiantar é preciso colocar a mão na massa para o bem fazer de Deus. Amém! Bom descanso a todos. Felicidades.

13 – EU O GLORIFIQUEI E O GLORIFICAREI DE NOVO

Caríssimos irmãos e irmãs, Assim como os gregos viajaram por quilômetros da sua cidade natal para estar com nosso Mestre, muitos de nós também gostaríamos de fazer esta mesma viagem para “ver“ Jesus, não é mesmo? Estes nossos irmãos vieram do paganismo helenístico tão somente para contatar com o Salvador, já tão próximo da morte. E ficaram admirados com a sabedoria que exauria das palavras daquele Homem. Jesus sabia que sua morte estava próxima, por isso encontrava-se tenso e angustiado tal como qualquer ser humano ficaria. Porém, sempre muito obediente ao Pai, Ele diz: ”Pai, glorifica o teu nome.” Jesus libera mais uma pérola retratando que sua morte servirá para produzir muitos frutos tal qual o grão de trigo, e assim salvar o mundo, e não para condená-lo. Cristo pede àqueles que o ouviam: “Se alguém me quer servir, siga-me, e onde eu estou estará também o meu servo. Se alguém me serve, o meu Pai o honrará.” Queridos irmãos e irmãs ser honrado por Deus é a maior de todas as graças, pois Deus “viu” que esta pessoa é um servo do seu Filho Jesus. Ele ouve e pratica os mandamentos de Jesus. Cristo diz de modo impactante que é Agora que o julgamento do chefe deste mundo: satanás. Pois a partir do momento em que Ele, Jesus for elevado do madeiro aos céus, Ele atrairá para si todo o gênero humano que n’Ele crer. Assim fala São Paulo em sua carta aos Colossenses (l,13): “O qual nos tirou da potestade das trevas, e nos transportou para o reino do Filho em seu amor.” Assim caríssimos devemos dar todos os dias de nossas vidas, graças ao Pai que glorificou o seu Filho tornando-nos herdeiros para participar da sua luz. A palavra de Deus é como a sementinha que é plantada nos nossos corações todas as vezes que abrimos a Bíblia, quando nos reunimos na igreja, quando participamos do banquete eucarístico, permitindo assim que o corpo consagrado de nosso Senhor Jesus interaja com o nosso, nos santificando. Muitos vão à igreja a procura de sinais, milagres e fortuna. Não encontrando, retornam ainda mais vazios para suas casas (seus mundos). É por isso que este mundo está poluído por pessoas que querem “ver” Jesus e acabam desistindo por causa das palavras distorcidas e materialistas de seus orientadores espirituais. Vamos imitar os apóstolos Felipe e André e mostrar que Jesus está vivo conosco quando colocamo-nos ao serviço do próximo. Que Jesus habite em seu coração hoje e sempre.

14 – SE O GRÃO DE TRIGO QUE CAI NA TERRA NÃO MORRE, ELE CONTINUA SÓ UM GRÃO DE TRIGO; MAS, SE MORRE, ENTÃO PRODUZ FRUTO

Concentremos, neste domingo, todo o nosso olhar no Senhor nosso, Jesus Cristo, e na sua missão salvadora. Para isto, comecemos pelo belíssimo evangelho deste hoje. Contemplemos o Senhor! Contemplemo-lo com os olhos, contemplemo-lo com a fé, contemplemo-lo com o coração! Jesus estava no interior do templo de Jerusalém, no pátio interno, chamado Pátio de Israel. Ali, nenhum pagão podia entrar, sob pena de morte. Pois bem, dois gregos, dois pagãos, aproximaram-se de Filipe, que certamente estava na parte mais externa, no chamado Pátio dos Gentios, até onde qualquer pessoa podia chegar. Dois gentios, que procuravam com fervor o Deus de Israel, tanto que “tinham subido a Jerusalém para adorar durante a festa”. Com humildade, eles pedem: “Gostaríamos de ver Jesus!” Eles não podiam entrar no Templo, não poderiam ver Jesus, a não ser que este saísse e viesse aonde eles estavam. Filipe, então, foi a Jesus e lhe relatou o pedido dos gregos. Jesus, então, afirmou, de modo misterioso: “Chegou a hora em que o Filho do Homem vai ser glorificado!” Que mistério, caríssimos: para que os pagãos vejam Jesus, isto é, para que o contemplem com os olhos da fé, para que nele creiam e nele tenham a vida, é necessário que Jesus seja glorificado pela cruz e pela ressurreição! É necessário que Jesus, grão de trigo, que se faz Eucaristia, morra e dê fruto – e este fruto é toda a humanidade, judeus e gentios que nele acreditarão e nele terão a vida eterna: “Se o grão de trigo que cai na terra não morre, ele continua só um grão de trigo; mas, se morre, então produz fruto”. Jesus entregará ao Pai a sua vida, para frutificar em salvação para nós, para que possamos vê-lo, contemplá-lo e experimentá-lo como nossa Luz e nossa Vida! Mas, não foi fácil a sua missão! A vida de Nosso Senhor foi toda ela uma entrega de amor, que culminou com a entrega mais absoluta na cruz. E isso custou! Como não nos impressionar com as misteriosas palavras da Epístola aos Hebreus? “Cristo, nos dias de sua vida terrestre, dirigiu preces e súplicas com forte clamor e lágrimas, àquele que era capaz de salvá-lo da morte. Mesmo sendo Filho, aprendeu o que significa a obediência a Deus por aquilo que ele sofreu. Mas, na consumação de sua vida, tornou-se causa de salvação eterna para todos os que lhe obedecem!” Que mistério tão grande, tão adorável! O Filho foi se consumindo durante toda a vida, fazendo-se, por nós, obediente ao Pai, até a morte e morte de cruz. O Filho amado, durante toda a sua existência humana foi, humildemente, buscando a vontade do Pai e a ela se entregando, mesmo quando foi percebendo que a vontade do Pai querido apontava para a cruz! Assim, tornou-se causa de salvação para todos nós, para os judeus e para os pagãos! Quanto tudo isso custou: “Agora sinto-me angustiado. E que direi? ‘Pai, livra-me desta hora?’ Mas foi precisamente para esta hora que eu vim. Pai, glorifica o teu nome!” Em Cristo, caríssimos, vai cumprir-se a promessa que o Senhor fizera pelo Profeta Jeremias: “Eis que virão dias em que concluirei com a casa de Israel e a casa de Judá uma nova aliança: imprimirei minha lei em suas entranhas e hei de inscrevê-la em seu coração. Todos me reconhecerão, pois perdoarei sua maldade e não mais lembrarei o seu pecado”. Eis, irmãos e irmãs: é na morte de Cristo que judeus e gentios entrarão para a nova e eterna Aliança no sangue do Senhor! Quanto somos valiosos, quanto custamos em dores e sacrifício, em doação e trabalhos ao Senhor! Quanto deveríamos amar àquele que nos amou até a morte e morte de cruz! Por isso mesmo São Pedro exclamará: “Sabeis que não foi com coisas perecíveis, com prata ou com ouro, que fostes resgatados da vida fútil que herdastes dos vossos pais, mas pelo sangue precioso de Cristo” (1Pd. 1,18). E, no entanto, caríssimos em Cristo, é a cruz do Senhor, é seu sacrifício amoroso ao Pai por nós, o critério do julgamento do mundo. Como dizia Bento XVI, não são os grandes, os crucificadores, que salvam, mas o pobre e impotente Crucificado: “É agora o julgamento deste mundo. Agora o Chefe deste mundo vai ser expulso, e eu, quando for elevado da terra, atrairei todos a mim”. Compreendem, meus caros, o que o Senhor está dizendo? Sua cruz é o critério do julgamento do mundo: tudo aquilo que não couber na cruz, tudo aquilo que fugir da lógica da cruz, é lixo, é palha para ser queimada! É o amor manifestado e derramado na cruz que vence satanás, que vence o pecado, que vence a morte e nos dá a vida plena. Não é a força, o sucesso, as razões humanas, o prestígio que salvam! Eis a loucura de Deus: é Cristo elevado na cruz quem libertará os gregos que estavam do lado de fora, sem poder entrar no povo da antiga aliança. Cristo morrerá por eles, por nós, para que todos, atraídos a ele, formemos um novo povo, a Igreja, povo da Nova e Eterna Aliança, selada no sacrifico do Senhor, neste mesmo Sacrifício Eucarístico que agora estamos celebrando nos ritos da sagrada liturgia! Quanta bondade, quanta misericórdia! Que dom tão grande recebemos do Senhor! Na cruz, de braços abertos, o Salvador nosso une judeus e pagãos num só povo, o novo Povo, a Igreja, sua amada esposa una, santa, católica e apostólica! É este, caríssimos, o mistério que a Palavra do Senhor nos convida a contemplar neste último Domingo antes do início da Grande Semana. Mas, do alto da contemplação, o Senhor nos surpreende com um convite, um desafio, quase que uma ordem inesperada: “Se alguém me quer servir, siga-me, onde eu estou estará também o meu servo”. – Nós queremos, sim, te servir, Senhor nosso! Dá-nos a força de te seguir até onde estás: estás na cruz e estás na glória. Jamais chegaremos a esta sem passar por aquela, porque quem não ama a tua cruz não verá a tua luz, a luz da tua glória! Senhor, concede-nos, como fruto da santa Quaresma, um coração generoso para ir contigo, fazendo, como tu, a vontade do Pai na nossa vida! Senhor, dá-nos a graça de unirmo-nos mais intensamente a ti nestes benditos e santos dias que se aproximam, nos quais faremos memorial nos santos mistérios, da tua Paixão, Morte e Ressurreição, pelas quais fomos salvos e libertos! “Dai-nos caminhar com alegria na mesma caridade que te levou a entregar-te à morte no teu amor pelo mundo”. A ti a glória, ó Cristo Deus, hoje e para sempre!

15 – ONDE ESTÁ A SALVAÇÃO?

Estamos nos aproximando da Páscoa, a celebração da morte-ressurreição do Senhor. Qual o significado da morte de Jesus, a morte que traz a vida? Não é, sem dúvida, o da busca ou aceitação do sofrimento pelo sofrimento, numa atitude masoquista ou conformista (“Jesus sofreu, a gente também tem de sofrer”). Essa ideia, muito propícia aos dominadores, foi no passado imposta aos dominados, que interessava ficassem calados. O que dá sentido à morte é a ressurreição, é a vida, a salvação. Embora uma expressão do texto de Hebreus a ser lido hoje possa dar a entender uma salvação apenas futura, para “a eternidade”, a salvação começa aqui e deve ser duradoura, eterna nesse sentido. Não podemos nos cansar de repetir a palavra de Jesus: “Eu vim para que todos tenham vida e vida em plenitude”. Vida na eternidade não pode ser consolo para falta de vida plena, vida para todos e cada vez melhor aqui. Como tornar possível uma vida mais feliz para todos assim na terra como no céu? O comunismo ou o socialismo real pretendeu impor a igualdade. O povo, sem liberdade, acabou explorado pela burocracia governamental. Foi desfeito com a maior facilidade. O capitalismo diz que é a cobiça e a competição que vão criar um mundo feliz para todos. Estamos vendo, o contrário é que acontece. As desigualdades só aumentam, a competição pelo dinheiro vira uma guerra desenfreada e a violência domina o mundo. Haverá outro caminho? As leituras bíblicas de hoje vêm apontar esse caminho alternativo e não esperado. O caminho é a cruz, o assumir o último lugar e sacrificar-se totalmente pelos outros. Só isso pode salvar a humanidade. Jeremias fala de uma nova aliança, uma nova Lei escrita não na pedra, mas no interior de cada pessoa. As palavras da instituição da eucaristia em Paulo e nos sinóticos já leem a morte de Cristo como inauguração dessa nova aliança. No curto texto de Hebreus a ser lido hoje, aprendendo com o sofrimento o que é obedecer, Jesus se torna fonte de salvação para todos. E, no evangelho, ele se compara ao grão de trigo que, para não ficar sozinho, tem de morrer a fim de produzir muitos frutos. A cruz domina o horizonte do evangelho como glória e caminho de vida farta e salvação. 1ª leitura (Jr. 31,31-34): O povo estava numa situação muito dura e difícil. O reino do norte, Israel ou Efraim, estava destruído, grande parte da população tinha sido levada para o exílio. O reino do sul, Judá, estava prestes também a ser derrotado pelos babilônios. Tudo é visto como consequência da infidelidade à Aliança, à Lei de Moisés, com os inocentes pagando pelos pecadores. A partir do versículo 20 deste texto, surge a esperança de restauração, de volta do exílio. Algo novo está sendo criado: a mulher cortejando o homem. É o povo, a esposa, buscando agradar a Javé, seu esposo. Lavradores e pastores como Caim e Abel estarão morando juntos. Israel e Judá se unirão para se tornar sementeiras, para crescer e se multiplicar. No trecho escolhido para hoje, se a Aliança do Sinai não foi observada, o profeta anuncia uma nova aliança, escrita não na pedra, mas no interior de cada um. A Lei implantada no coração de cada um não desfaz ou invalida a primeira Aliança, ao contrário, coloca-a no coração – a gente diria hoje: na cabeça – de cada fiel. É um grande passo na reflexão dos profetas, que nos vai fazer entender melhor a expressão nova aliança. No início, o texto fala em casa de Judá e casa de Israel, distinguindo as duas nações, depois apenas o nome Israel vai indicar todo o povo de Deus. Todo o Israel foi libertado da escravidão do Egito e o êxodo foi o fundamento da primeira Aliança: “Vejam o que fiz aos egípcios e como vos tirei de lá (…) e agora, se ouvirdes a minha voz, sereis para mim (…)” (Ex. 19,4-5). Mas essa aliança, mesmo escrita em pedras, foi violada. Agora, então, vem uma nova aliança escrita no coração de cada um; agora cada qual terá vontade de seguir a Lei do Senhor, e já ninguém terá a pretensão de ensinar ou guiar o seu irmão; todos estarão em busca do conhecimento de Javé, de serem fiéis à lei da solidariedade e do respeito aos mais fracos (Jr. 22,16). 2ª leitura (Hb. 5,7-9): Será que, tendo sofrido morte tão humilhante, Jesus salvou mesmo a humanidade? Assim se perguntavam alguns cristãos judeus. No texto da segunda leitura, encontramos a resposta. Na sua vida humana, Jesus clamou e chorou para que Deus o livrasse da morte. Ressuscitando-o, Deus o atendeu e fez dele a fonte da salvação duradoura. “Salvação eterna”, no nosso vocabulário, nada tem que ver com o nosso mundo, a nossa realidade, é coisa exclusivamente para a outra vida, é atemporal. No conceito bíblico, porém, a palavra que se costuma traduzir por eterno, eternidade, significa apenas duradouro, duradoura, permanente. É algo que começa e vai durar. Na sua paixão, Jesus aprendeu o que significa obedecer, ser coerente, responder com coragem e fidelidade aos apelos de Deus. Obediência vem do verbo ouvir, tem a ver com audiência, dar atenção. É responder ao apelo de Deus para o momento, é fazer o que nos pede, em cada circunstância, o mandamento do amor ao próximo. Evangelho (Jo 12,20-33): Os gregos que estão em Jerusalém para prestar culto a Javé também querem entrar em contato com Jesus, querem se aproximar dele, segui-lo. É o alcance do seu “queremos ver Jesus”. Para chegar a Jesus, o caminho deles é Filipe, que tem nome grego, mas era da cidade dos irmãos André e Pedro, Betsaida da Galileia. Filipe foi um dos primeiros discípulos e o único que Jesus tomou a iniciativa de chamar (Jo 1,43-44). Ele chama o irmão de Pedro, André, seu conterrâneo, também de nome grego, e ambos vão a Jesus. A resposta de Jesus parece nada ter que ver com o desejo dos gregos de se aproximarem dele. Ele responde dizendo, entretanto, que sua morte salva a humanidade toda e é isso que tem que ver com a busca dos gregos. Se também os gregos o procuram, é porque ele atrai todos a si (v. 33), o grão de trigo não fica sozinho, produz muito fruto (v. 24). A glória dele é esta, mostrar que a vida nasce da morte, que a vitória vem do fracasso, que a salvação vem do sacrifício de si em favor dos outros. Essa proposta de Jesus desafia todas as outras tentativas de buscar uma saída para a humanidade. E não é fácil de entender e de assimilar, como disse uma pessoa de nossas comunidades: “Nem que a gente vivesse mais duzentos anos acabaria de entender todo o significado da morte de Jesus”. Não é fácil segui-lo, colocar-se onde ele se coloca, não fazer conta da própria vida, do próprio bem-estar, mas deixar-se morrer como a semente, para não ficar sozinho e produzir muitos frutos. O próprio Jesus é levado a dizer: “Pai, livra-me desta hora”, o que nos sinóticos está na oração no Getsêmani ou no horto das Oliveiras. Ao entregar a própria vida, Jesus condena o mundo governado pela arrogância, pela concentração de poderes, pela imposição da vontade de um sobre todos, pela cobiça e pela competição. “É agora o julgamento deste mundo, agora o que manda neste mundo vai ser posto para fora”, diz ele hoje. Na Paixão segundo João, parece que é Jesus, não Pilatos, que senta na cadeira de juiz, ao tribunal (Jo 19,3). Quando a coligação dos poderes romano e judaico pensa que o está condenando, é ele, Jesus, vestido, coroado e sentado como rei, que está condenando o que governa este mundo. Dicas para reflexão: – Salvação não é uma ilusão para consolar as vítimas de uma sociedade perversa, contrária ao projeto de Deus. Salvação é vida para todos e vida plena, cada dia melhor, assim na terra como no céu. – O Crucificado é fonte de salvação. Não é fácil entender. Como pode a tristeza ser fonte de alegria? Como pode a dor ser fonte de plena satisfação? Como pode a lágrima ser fonte de riso? Como pode a humilhação ser fonte de glória? E é isso que é preciso entender. Entender e praticar. – É agora o julgamento deste mundo. O que é que manda neste mundo? Pois os critérios da arrogância, do poder, da riqueza estão sendo postos para fora, estão sendo excluídos pelos critérios da humildade, do serviço ao outro, da doação de si. – “Se quer me servir, siga-me!” Se não quiser cair na solidão que leva à depressão, esqueça o cuidado com a própria vida, deixe de lado seus interesses, deixe de pensar em si mesmo, doe-se, morra cada dia, como a semente que produz muito fruto. – A salvação não é completa se alguns ficam de fora. Vida plena é vida para todos e cada vez melhor, mais completa, incluindo a capacidade de doação e serviço de uns para os outros. Só isso traz a alegria que ninguém pode tirar, vida duradoura, vida eterna. – “Quando eu for levantado da terra, atrairei todos a mim.” Um pobre homem nu e pendurado numa cruz pode despertar algum interesse, pode ser atração para a humanidade inteira? Pode ser atração para mim? O mais profundo sentimento humano não é o competir, é o ser solidário. A cruz abre novos caminhos para a história.

MONIÇÕES

MONIÇÃO AMBIENTAL OU COMENTÁRIO INICIAL

Vimos ao encontro do Senhor, atraídos por seu amor. Com a experiência do grão que morre para nascer e produzir frutos, aprendemos que seguir a Cristo implica comungar da sua vida e do seu destino. Fazemos memória da páscoa de Jesus, que se realiza nas pessoas que, a exemplo dele, gastam a vida em favor dos outros.

MONIÇÃO PARA A(S) LEITURA(S) E O SALMO

Deus quer renovar sua aliança conosco. Ele nos convida a ser-lhe obedientes a exemplo de Jesus, que, permanecendo fiel, morre para produzir frutos de amor e salvação.

MONIÇÃO PARA O EVANGELHO

Glória a vós, ó Cristo, Verbo de Deus! Se alguém me quer servir, que venha atrás de mim; e onde eu estiver, ali estará meu servo (Jo 12,26).

ANTÍFONAS

Antífona da entrada

A mim, ó Deus, fazei justiça, defendei a minha causa contra a gente sem piedade; do homem perverso e traidor, libertai-me, porque sois, ó Deus, o meu socorro (Sl 42,1s).

Antífona da comunhão

Em verdade, em verdade eu vos digo, se o grão de trigo não cai na terra e não morre, fica sozinho. Mas, se morrer, produzirá muitos frutos (Jo 12,24s).

ORAÇÕES DO DIA

Oração do dia ou Oração da coleta

Senhor nosso Deus, dai-nos, por vossa graça, caminhar com alegria na mesma caridade que levou o vosso Filho a entregar-se à morte no seu amor pelo mundo. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, Vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.

Preces da Assembleia ou Oração da Assembleia

A exemplo de Jesus nos dias de sua paixão, supliquemos a Deus, nosso Pai:
— Vinde em nosso auxílio, Senhor.

— Fortalecei, Senhor, os ministros da Igreja na missão de mostrar Jesus à humanidade. Nós vos pedimos.
— Iluminai os povos e seus dirigentes, para que vivam em paz e se desenvolvam na justiça e na solidariedade. Nós vos pedimos.
— Imprimi em nosso coração o vosso amor, para que sempre busquemos fazer vossa vontade. Nós vos pedimos.
— Dai perseverança aos que vão ser batizados na Vigília Pascal deste ano e alegria a seus pais e padrinhos. Nós vos pedimos.
— Animai as pastorais da comunidade, para que deem testemunho autêntico da fé em Jesus. Nós vos pedimos.

Concluamos as preces com a oração da Campanha da Fraternidade:

Senhor Deus de amor, / Pai de bondade, / nós vos louvamos e agradecemos pelo dom da vida, / pelo amor com que cuidais de toda a criação. / Vosso Filho, Jesus Cristo, / em sua misericórdia, / assumiu a cruz dos enfermos e de todos os sofredores, / sobre eles derramou a esperança / de vida em plenitude. / Enviai-nos, Senhor, o vosso Espírito. / Guiai a vossa Igreja, / para que ela, pela conversão, / se faça sempre mais solidária / às dores e enfermidades do povo / e que a saúde se difunda sobre a terra. Amém.

Oração sobre as oferendas

Deus todo-poderoso, concedei aos vossos filhos e filhas que, formados pelos ensinamentos da fé cristão, sejam purificados por este sacrifício. Por Cristo, nosso Senhor.

Oração depois da comunhão

Concedei, ó Deus todo-poderoso, que sejamos sempre contados entre os membros de Cristo, cujo Corpo e Sangue comungamos. Por Cristo, nosso Senhor.

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