Liturgia Diária 28/OUT/12

LEITURA DIÁRIA DA PALAVRA

28/OUT/2012 (domingo)

LEITURAS

Leitura do livro do profeta Jeremias 31,7-9 (Livro do velho ou 1º testamento / Livros Proféticos)

7 Isto diz o Senhor: “Exultai de alegria por Jacó, aclamai a primeira das nações; tocai, cantai e dizei: ‘Salva, Senhor, teu povo, o resto de Israel’. 8 Eis que eu os trarei do país do Norte e os reunirei desde as extremidades da terra; entre eles há cegos e aleijados, mulheres grávidas e parturientes: são uma grande multidão os que retornam. 9 Eles chegarão entre lágrimas e eu os receberei entre preces; eu os conduzirei por torrentes d’água, por um caminho reto onde não tropeçarão, pois tornei-me um pai para Israel, e Efraim é o meu primogênito”.  – Palavra do Senhor. – Graças a Deus.

Proclamação do Salmo 125,1-2ab.2cd-3.4-5.6 (R. 3) (Livro do velho ou 1º testamento / Livros Poéticos e de Sabedoria ou Sapienciais)

— 3 Maravilhas fez conosco o Senhor, exultemos de alegria!
— 1 Quando o Senhor reconduziu nossos cativos, parecíamos sonhar; 2a encheu-se de sorriso nossa boca, 2b nossos lábios, de canções.
— 2c Entre os gentios se dizia: ‘Maravilhas 2d fez com eles o Senhor!’ 3 Sim, maravilhas fez conosco o Senhor, exultemos de alegria!
— 4 Mudai a nossa sorte, ó Senhor, como torrentes no deserto. 5 Os que lançam as sementes entre lágrimas, ceifarão com alegria.
— 6 Chorando de tristeza sairão, espalhando suas sementes; cantando de alegria voltarão, carregando os seus feixes!

Leitura da carta aos Hebreus 5,1-6 (Livro do novo ou 2º testamento / Livros Didáticos)

1 Todo sumo sacerdote é tirado do meio dos homens e instituído em favor dos homens nas coisas que se referem a Deus, para oferecer dons e sacrifícios pelos pecados. 2 Sabe ter compaixão dos que estão na ignorância e no erro, porque ele mesmo está cercado de fraqueza. 3 Por isso, deve oferecer sacrifícios tanto pelos pecados do povo, quanto pelos seus próprios. 4 Ninguém deve atribuir-se esta honra, senão o que foi chamado por Deus, como Aarão. 5 Deste modo, também Cristo não se atribuiu a si mesmo a honra de ser sumo sacerdote, mas foi aquele que lhe disse: “Tu és o meu Filho, eu hoje te gerei”. 6 Como diz em outra passagem: “Tu és sacerdote para sempre, na ordem de Melquisedec”. – Palavra do Senhor. – Graças a Deus.

Proclamação do evangelho de Jesus Cristo segundo Marcos 10,46-52 (Livro do novo ou 2º Testamento / Livros Históricos)

Naquele tempo, 46 Jesus saiu de Jericó, junto com seus discípulos e uma grande multidão. O filho de Timeu, Bartimeu, cego e mendigo, estava sentado à beira do caminho. 47 Quando ouviu dizer que Jesus, o Nazareno, estava passando, começou a gritar: “Jesus, filho de Davi, tem piedade de mim!” 48 Muitos o repreendiam para que se calasse. Mas ele gritava mais ainda: “Filho de Davi, tem piedade de mim!” 49 Então Jesus parou e disse: “Chamai-o”. Eles o chamaram e disseram: “Coragem, levanta-te, Jesus te chama!” 50 O cego jogou o manto, deu um pulo e foi até Jesus. 51 Então Jesus lhe perguntou: “O que queres que eu te faça?” O cego respondeu: “Mestre, que eu veja!” 52 Jesus disse: “Vai, a tua fé te curou”. No mesmo instante, ele recuperou a vista e seguia Jesus pelo caminho. – Palavra da Salvação. – Glória a vós, Senhor.

… Eu sou o CAMINHO …

O que o texto diz para mim, hoje? A minha vivência da fé em Jesus Cristo é para ser comunicada. Como dizem os bispos da América Latina: “Desejamos que a alegria que recebemos no encontro com Jesus Cristo, a quem reconhecemos como o Filho de Deus encarnado e redentor, chegue a todos os homens e mulheres feridos pelas adversidades; desejamos que a alegria da boa nova do Reino de Deus, de Jesus Cristo vencedor do pecado e da morte, chegue a todos quantos jazem à beira do caminho, pedindo esmola e compaixão (cf. Lc 10,29-37; 18,25-43).” (DAp 32).

… a VERDADE …

O que diz o texto do dia? Leio atentamente, na Bíblia, o texto: Mc 10,46-52, e observo pessoas, Jesus e o cego Bartimeu. Bartimeu, cego, marginalizado, “sentado à beira do caminho, pedindo esmola”, percebe o que outros não percebem: Jesus de Nazaré que passa. A sua fé, mesmo se imperfeita, é um órgão mais luminoso do que a vista dos que enxergavam. É através desta fé que ele receberá de Jesus o dom da recuperação da visão. Curado “porque teve fé”, Bartimeu “segue” Jesus pelo caminho. O itinerário deste cego é um forte testemunho de fé, iluminação, chamado e seguimento do Mestre.

… e a VIDA …

Pai, dá-me forças para lutar contra a cegueira que me impede de reconhecer teu amor misericordioso manifestado em Jesus. Faze com que eu veja!

Qual deve ser a MISSÃO em minha VIDA hoje?

Vou olhar o mundo e a vida com os olhos de Deus. Uma nova visão no meu modo de pensar e agir, conforme o Projeto de Jesus Mestre.

REFLEXÕES:

1 – CEGUEIRA DOS DISCÍPULOS

Podemos perceber que Marcos, ao escrever seu evangelho, teve a intenção de caracterizar três etapas do ministério de Jesus. A primeira, até o capítulo 8, versículo 21, envolvendo o ministério de Jesus na Galileia e nas regiões gentílicas vizinhas, abrange desde o batismo de João até a passagem por Betsaida; é uma fase de formação dos discípulos, e a palavra chave é a “casa”, mencionada frequentemente como lugar onde a comunidade se encontra com Jesus. A segunda etapa, do capítulo 8, versículo 22, ao capítulo 10, versículo 52, que envolve a viagem com destino a Jerusalém, a partir de Betsaida e dos povoados de Cesaréia de Filipe, ao norte da Galileia; nesta etapa a palavra-chave é o “caminho”, repetida várias vezes, ao longo do qual Jesus prepara os discípulos para o desfecho de seu ministério em Jerusalém, destacando-se nesta etapa os três “anúncios da Paixão” (Mc 8,31-32; 9,30-32; 10,32-34). A terceira etapa, a partir do capítulo 11, abrange o ministério de Jesus em Jerusalém, culminando com a Paixão, morte e ressurreição. A leitura de hoje, com a cura do cego de Jericó, fecha a segunda etapa do ministério de Jesus, cujo início foi demarcado também com a cura de um cego em Betsaida. Com este artifício literário, incluindo a caminhada para Jerusalém entre duas curas de cegos, Marcos realça que Jesus está empenhado em abrir os olhos dos próprios discípulos quanto à natureza de sua missão no mundo. Nesta caminhada, aproximando-se de Jerusalém, passam por Jericó, situada a cerca de 25 km daquela cidade de destino. Os discípulos acompanham Jesus, sem ainda compreender, com clareza, o sentido pleno de sua missão, pois tinham dele uma visão messiânica triunfalista. A narrativa da cura é feita em cores vivas, como em uma cena teatral: a multidão que acompanha Jesus; o cego, mendigo, sentado à beira da estrada; seus gritos insistentes, indiferente à repreensão de muitos; o chamado de Jesus e o seu pulo, jogando o manto fora, concluindo com a recuperação da visão. Pode-se imaginar que os mendigos de Jericó se instalassem à beira do caminho que, vindo do norte, levava a Jerusalém, contando com a benevolência e a piedade dos peregrinos, que, em grandes grupos, viajavam para a cidade a fim de cumprir o preceito de participação na festa da Páscoa judaica, no Templo. O cego que estava à beira do caminho, de certo modo, é a imagem destes discípulos em sua incompreensão. Ele “vê”, equivocadamente, Jesus como o “Filho de Davi”, messias poderoso e triunfante da tradição judaica do Primeiro Testamento. Contudo, este homem quer libertar-se de sua cegueira. Jesus pergunta-lhe: “Que queres que eu te faça?”. Esta pergunta havia sido dirigida, pouco antes a Tiago e João, cuja resposta revela que, cegamente, aspiravam ao poder. Bartimeu, simplesmente, quer “ver”, e, vendo Jesus Nazareno com clareza, ele o segue em seu caminho. Nossa fé consiste em “ver” Jesus presente, hoje, no mundo, humilde e amoroso, caminhando com seus discípulos na construção de um mundo novo de justiça e paz.

2 – A GRANDEZA DE SERVIR

O Reino de Deus introduziu nova ordem de relações entre as pessoas, muito diferente da mentalidade do mundo. Para quem é mundano, a grandeza consiste em exercer o domínio sobre as pessoas, e mostrar-se cheio de poder, porque a submissão lhe parece fruto do medo. O serviço prestado ao tirano não resulta de um ato amoroso, mas revela-se uma pesada obrigação. O Reino, pelo contrário, segue na direção oposta. O domínio transforma-se em serviço. O dominado assume a feição do irmão a quem se deve amar e servir. O poder não é utilizado para oprimir, antes, para libertar. A relação de escravidão transforma-se em relação de fraternidade. A grandeza, portanto, para o discípulo do Reino não consiste em ser servido mas em servir e oferecer a própria vida para que o outro possa crescer. Foi por esta razão que Jesus convidou Tiago e João a mudarem de mentalidade e pensarem segundo os critérios do Reino. O pedido que fizeram ao Mestre talvez escondesse o desejo de exercerem poder sobre os demais companheiros de discipulado, numa espécie de dominação. Pretendiam ocupar um lugar de destaque junto de Jesus, para usufruir do poder. Jesus denunciou esta maneira errada de pensar. O discípulo deve espelhar-se nele, enviado pelo Pai para colocar-se a serviço da humanidade e dar a vida pela salvação de todos. Esta é a sua grandeza!

3 – JESUS ESTÁ PASSANDO AGORA NO CAMINHO DO SEU CORAÇÃO

Jericó acordara cedinho trazendo ainda – no rosto dos seus habitantes – a alegria contagiante da passagem de Jesus. Os comentários sucediam-se; não faltavam opiniões, as mais diversas; pessoas emocionadas; gente simples que tomara ares de vida nova… Tudo resplandecia. A cidade respirava um ar diferente, apesar do parecer contrário de muitos a respeito do ocorrido no dia anterior: o jantar de Jesus e seus discípulos na casa de Zaqueu. É que eles ainda não se tinham dado conta destas palavras: “Eu vos digo que do mesmo modo, haverá mais alegria no céu por um só pecador que se arrependa do que por noventa e nove justos que não precisam de arrependimento” (Lc 15,7). Parece-me ouvir nitidamente a voz de Jesus repetindo aos insatisfeitos o que dissera alguns dias antes aos seus discípulos: “O que vos parece? Se um homem possui cem ovelhas e uma delas se extravia, não deixa ele as noventa e nove nos montes e vai à procura da que se perdeu? Se consegue encontrá-la, em verdade vos digo, terá maior alegria com ela do que com as noventa e nove que não se extraviaram” (Mt 18,12-13). Eles, por certo, ainda não haviam entendido a “lógica” de Jesus, e muito tempo ainda decorreria para que entendessem que “a sua lógica não tem lógica”, visto que o Reino não chegara para “os sábios e entendidos”. Ao sair de Jericó com os seus discípulos e grande multidão, estava sentado à beira do caminho, mendigando, o cego Bartimeu, filho de Timeu. Os pobres eram, em primeiro lugar, os mendigos. Estes eram os doentes e aleijados que tinham recorrido à mendicância, haja vista a impossibilidade de serem empregados e não possuírem parentes que pudessem (ou quisessem) sustentá-los. Era o contraste que se deparava diante de todos. Ainda há pouco, as cores da alegria; no instante presente, a máscara da tristeza, da miséria e da opressão. Bartimeu, além de mendigo, era cego. Excluído e humilhado pela sociedade, perdera a vergonha de estender as mãos para angariar míseras moedas para o seu sustento. Aprendera na dor a ser humilde; aprendera na obediência a Deus a viver sem murmurar; aprendera a aceitar a sua condição de dependência e opressão. Aprendera de maneira dinâmica – e não de maneira estática – a acolher a sua condição limitada. Dentro dele latejava a ânsia de lutar por dias melhores. Sentia em sua alma alguma coisa que falava não sei o quê… Ele não compreendia, mas sentia profundamente que aquela coisa… É como se pressentisse algo. Era chegado o tempo de descruzar os braços. Seu tato era extraordinário. Poderíamos afirmar, sem receio, que ele enxergava pelas mãos, pelos dedos. Por outro lado, a sua capacidade auditiva era extremamente apurada. Não tendo capacidade para detectar a luz, desenvolvera a capacidade de detectar as formas e os sons. Aqueles sons que se aproximavam do lugar em que estava mendigando, um alarido não muito constante em Jericó, tornara-se o sinal indicativo de que um personagem importante estava deixando a cidade. À medida que a multidão se aproximava, mais ele apurava os ouvidos. Quando percebeu que era Jesus, o Nazareno, que passava, começou a gritar: “Jesus, filho de Davi, tem compaixão de mim!” Ele naturalmente não viu; mas através do vozerio identificou que era Jesus. E começou a gritar, clamando por misericórdia Àquele que é “a luz do mundo e o caminho, a verdade e a vida” (Jo 8,12; 14,6). E muitos o repreendiam para que se calasse. Ele porém, gritava mais ainda: “Filho de Davi, tem compaixão de mim!” A insistência e a persistência de quem luta por aquilo que quer e deseja, e anseia, e busca, e pede, e clama… Encontra ressonância aos ouvidos do Senhor. Detendo-se, Jesus disse: “Chamai-o!” Jesus para e manda chamá-lo. Diante da miséria humana, Jesus nunca segue adiante. É o Bom Pastor que cuida da ovelha doente; e o Bom Samaritano que trata das feridas da ovelha machucada. Chamaram o cego, dizendo: “Coragem! Ele te chama. Levanta-te!” Deixando a sua capa, levantou-se e foi até Jesus. A doença que o oprimia, escravizava e humilhava, a partir de agora deixava de ter sentido. Aquela capa que fora símbolo de exclusão social foi atirada longe. O que importava era levantar-se o mais depressa possível e chegar até Jesus. Naquele instante, os olhos da Luz encontraram os olhos sem luz. E no Coração de Jesus afloram as palavras proferidas na sinagoga de Nazaré: “O Espírito do Senhor está sobre mim porque ele me ungiu para evangelizar os pobres; enviou-me para proclamar a remissão aos presos e aos cegos a recuperação da vista; para restituir a liberdade aos oprimidos e para proclamar o ano da Graça do Senhor”. Diante dele, Bartimeu: pobre, mendigo, cego, cativo, preso, oprimido… Então Jesus lhe disse: “Que queres que eu te faça?” O cego respondeu: “Mestre, que eu possa ver novamente!” Jesus respeita a nossa liberdade. Por isso a razão da sua pergunta. Ele queria que Bartimeu verbalizasse, apesar de saber e vê-lo cego. Quando ele expressou o seu desejo de cura, Jesus lhe disse: “Vai, a tua fé te salvou!” No mesmo instante, ele recuperou a vista e seguia-o pelo caminho. São palavras que curam o corpo, a alma e o coração. O cego não é aquele que não vê, mas aquele que não quer ver. Quantos passam a vida sentados à beira do caminho, braços cruzados, olhos perdidos no vazio e na escuridão, acomodados, desencorajados, desesperançados, descrentes de Deus, descrentes do mundo, descrentes das pessoas… Mortos vivos ou vivos mortos? Em qual das duas categorias você se ajusta? Jesus está passando agora no caminho do seu coração. Não deixe esta graça passar sem realizar o que Deus quer. Peça, busque, clame, grite, como Bartimeu: “Jesus, filho de Davi, tem compaixão de mim!” Clama com as palavras que o Espírito Santo lhe inspirar: “Jesus, eu só enxergo as coisas do mundo. O meu coração e os meus olhos encharcados de concupiscências, de pecados, de vícios, de egoísmo, de orgulho, de vaidade, de adultério, de rancor… Eu sou cego para o amor, para o perdão, para a misericórdia, para a disponibilidade, para o serviço aos irmãos, para a partilha. Eu sou cego para a humildade, para o desprendimento, para a renúncia, para o despojamento de mim mesmo. Tem compaixão de mim!” E os seus olhos se abrirão; sua alma exultará; seu espírito haverá de cantar as misericórdias que o Senhor realizou na sua vida. Mas não basta apenas isto. É necessário exercitar a fé. É seguindo Jesus pelo caminho, como fez Bartimeu, que se cumpriram as palavras de Jesus em sua vida: “Vai, a tua fé te salvou”.

4 – SENHOR, QUE EU VEJA

Em ti, ó Deus vivente, o meu coração e a minha carne estremeceram e a minha alma se alegrou em ti, minha salvação verdadeira (Sl 83,3). Quando Te verão os meus olhos, Deus dos deuses, meu Deus? Deus do meu coração, quando me alegrarás com a visão da doçura da Tua face? Quando preencherás o desejo da minha alma pela manifestação da Tua glória? Meu Deus, Tu és a minha herança, escolhida entre todos, minha força e minha glória! Quando entrarei no Teu poder para ver a Tua força e a Tua glória? Quando então, em vez do espírito de tristeza, me revestirás do manto de louvor (Is 61,10) para que, unida aos anjos, todos os meus membros Te ofereçam um sacrifício de aclamação (Sl 26,6)? Deus da minha vida, quando entrarei no tabernáculo da Tua glória, a fim de cantar em presença de todos os santos e proclamar de alma e coração que as Tuas misericórdias por mim foram magníficas (Sl 70,16)? Quando se quebrará o fio desta morte, para que a minha alma possa ver-Te sem intermediários? (Gn 19,19) […] Quem se saciará à vista da Tua claridade? Como poderá o olho bastar para ver e o ouvido para ouvir na admiração da glória da Tua face?

5 – QUE QUERES QUE EU TE FAÇA? O CEGO RESPONDEU: RABÛNI, MEU MESTRE, QUE EU VEJA.

Hoje, contemplamos um homem que, na sua desgraça, encontra a verdadeira felicidade graças a Jesus Cristo. Trata-se de uma pessoa com duas carências: falta de visão corporal e incapacidade de ganhar a vida, o que o obriga a mendigar. Precisa de ajuda e fica junto do caminho, à saída de Jericó, onde passam muitos caminhantes. Por sorte dele, naquela ocasião quem passa é Jesus, acompanhado dos seus discípulos e outras pessoas. Sem dúvida, o cego já tinha ouvido falar de Jesus; haviam-lhe comentado que fazia prodígios e, ao saber que passa perto dele, começa a gritar: Filho de Davi, tem compaixão de mim! (Mc 10,47). Os acompanhantes do Mestre ficam incomodados com os gritos do cego, não pensam na triste situação daquele homem, são egoístas. Porém Jesus quer responder ao mendigo e faz com que o chamem. Imediatamente o cego se encontra perante o Filho de Davi e o diálogo começa com uma pergunta e uma resposta: Jesus, dirigindo-se a ele, disse: Que queres que eu te faça? O cego respondeu: Rabûni, que eu veja! (Mc 10,51). E Jesus concede-lhe a dupla visão: a física e a mais importante, a fé, que é a visão interior de Deus. São Clemente de Alexandria diz: “Ponhamos fim ao esquecimento da verdade; despojemo-nos da ignorância e da obscuridade que, como uma nuvem, ofuscam os nossos olhos, e contemplemos Aquele que é realmente Deus”. Queixamo-nos frequentemente e dizemos: Não sei rezar. Sigamos, então, o exemplo do cego do Evangelho: Insiste em chamar Jesus e, com três palavras, diz-lhe do que necessita. Falta-nos fé? Digamos-lhe: Senhor, aumenta a minha fé. Temos familiares ou amigos que deixaram de praticar? Então, rezemos assim: Senhor Jesus, faz que vejam. A fé é assim tão importante? Se a compararmos com a visão física, que diremos? A situação do cego é triste, mas muito mais triste é a daqueles que não creem. Digamos-lhes: O Mestre lhe chama, apresenta-lhe as suas necessidades e Jesus responderá com generosidade.

6 – SENHOR, QUE EU VEJA!

Prezados irmãos. Estamos cegos! Porque não queremos enxergar a causa número um do mal na nossa sociedade. Crimes bárbaros, assaltos acontecem à luz do dia. Um verdadeiro inferno em vida! E os principais agentes da violência são os jovens. O demônio dominou a parte mais forte da sociedade, que é a juventude. E fez com que os jovens abusassem sem nenhum limite, da maior energia do seu corpo, a sexualidade. Vivem sem freios, se divertindo em lugares de risco, não querem trabalhar, e para conseguir dinheiro, assaltam, matam, e fica por isso mesmo. Por que isso acontece? Por causa da impunidade escrita no Estatuto do Menor e do Adolescente. O pior cego não é aquele que não vê, mais sim aquele que não quer ver! Parece que estamos acuados, com muito medo, hipnotizados, encantados, mais na verdade, estamos cegos, ou melhor, não queremos enxergar a causa primeira do mal social. Estamos esperando o que? Estamos esperando que o mal tome conta de tudo? Jesus sabia o que o cego queria. Mais Ele queria ouvir da sua boca o pedido. ‘O que queres que eu te faça?’ O cego respondeu: ‘Mestre, que eu veja!’ E aquilo foi uma oração na presença física de Jesus. Assim Jesus quer ouvir também de nós, o nosso pedido, a nossa oração. Ele quer que peçamos a Deus em seu nome, uma solução para o caos a que estamos entrando. Imagine a sociedade daqui há 30 anos. Quem serão os professores? Quem será o presidente da República? Quem serão os policiais? Hoje assistimos nos noticiários a morte quase que diária de policiais, delegados, e continuamos de braços cruzados. Por que um policial ganha tão pouco para arriscar a sua vida em defesa do cidadão? Porque não se mexe nas leis fracas que garantem a impunidade dos criminosos principalmente os jovens? Ai do professor que der um pequeno empurrão em um aluno. Ai do repórter que mostrar a cara do menor infrator na tela! Meu Deus! O que é isso! Até onde isso vai durar? Quando os “cegos” recuperarem suas vistas e querer consertar as coisas, será tarde de mais, porque o mal já terá dominado todos os setores da sociedade! Prezados irmãos. Estamos sendo cristãos teóricos, do tipo que apenas houve a palavra de Deus mais não a coloca em ação para a transformação desse mundo. Vamos perguntar a nós mesmo agora. O que eu posso fazer além de rezar? Será que não podemos organizar passeatas exigindo leis mais eficazes e a reformulação do Estatuto do Menor? Mais têm de ser passeatas em toda parte dessa sociedade que está vivendo prisioneira em suas casas, enquanto lá fora está o infrator armado, livre e pronto para atacar. Para o cidadão de bem o uso da arma está proibido. Porém, isso de nada adiantou para a redução da violência, se o delinquente pode andar armado. Jesus, tem piedade de nós! Porque precisamos recuperar a vista e sair dessa cegueira, dessas trevas, e seguir os seus passos como o fez aquele cego. Jesus filho de Davi. Tem piedade de nós!

7 – QUE EU VEJA!

Há uma canção de Roberto e Erasmo Carlos, que eu vivia cantarolando nos meus tempos de jovem, quando tomado por alguma tristeza ou decepção, o poeta compositor da letra, fala de alguém, que por conta de uma decepção amorosa, desistiu de viver e ficou sentado á beira do caminho, onde até a poeira é triste. A dinâmica da vida nos impele a caminhar, quem não se deixa contagiar por esse dinamismo, acaba ficando fora do processo, a letra da canção mostra bem esse sentimento de que não existimos, quando a pessoa a quem amamos permanece indiferente “Preciso lembrar que eu existo…”. Quem é esse cego Bartimeu, mendigando amor á beira de um caminho, senão o próprio homem, que não conhecendo a Deus revelado em Jesus, lhe permanece indiferente? A pós-modernidade oferece ao homem Muitas “luzes” na ciência, na tecnologia, no avanço das pesquisas, acontece que o ser humano, apropriando-se desses bens, que são dons de Deus, julga ver tudo, compreender tudo, e sentindo-se Senhor absoluto da situação, pensa e faz o que quer, usa sua liberdade da pior maneira possível e fazendo coro ao racionalismo dos intelectuais, decreta a morte de Deus. Entretanto, um belo dia este homem prepotente e arrogante, irá descobrir-se como este cego de Jericó. Tem tudo mais não tem a graça de Deus, que Jesus trouxe com a Salvação. Nesse sentido não se conhece, porque não conhece a Jesus, é cego, porque não viu em sua vida a luz da verdade, está a margem da verdadeira vida, é um milionário mendigando um pouco de amor àquele que é amor. Em um coração e uma alma, ferida pela descrença, agonizante de vida e esperança, é que sai esse grito de Bartimeu, ao saber que Jesus de Nazaré passava por ali, bem ao lado de onde ele expunha aos que passavam, a sua miséria vergonhosa. “Jesus, Filho de Davi, tem compaixão de mim!”. Foi assim que Jesus, o Verbo Encarnado de Deus, encontrou o homem, morto pelo pecado, andarilho e mendigo á beira da estrada da Vida, sem forças para caminhar, em sua cegueira tenebrosa. No canto da Verônica, no caminho do calvário, inverte-se esse quadro e Jesus ocupa o lugar que é do homem “Oh Vós todos que passais, vinde ver se há uma dor igual a minha…” Na verdade é a humanidade toda que estava á beira do caminho, sucumbida em sua miséria, quem passa é Jesus, que não fica indiferente as nossas chagas e feridas, como o Sacerdote e o Levita, na parábola do Bom Samaritano, que ouviu por certo os gemidos daquele homem caído á beira do caminho, Jesus também ouviu nossos lamentos e queixumes, o grito desesperado de quem perdeu quase toda a esperança, “Senhor, Tende compaixão”. Sempre haverá vozes contrárias, tentando abafar esse grito de quem já não encontra mais razão para viver, há aqueles que como esse grupo numeroso que segue a Jesus, querem dele se apossar, fecham o anúncio e a graça em suas “Igrejinhas particulares”, idealizam um Jesus exclusivo que só atende a eles, os santos, justos e perfeitos, é o grito dos casais em segunda união, talvez, é o grito de tantas jovens mães solteiras, de drogados e prostituídos, de pessoas rotuladas como irrecuperáveis, banidos de nossas relações, explorados pelo sistema pecaminoso, e oprimidos muitas vezes pelo próprio poder religioso, de tantas igrejas que se intitulam de “Cristãs”. O grito de desespero não passa despercebido por Jesus, quando o seu povo gemia sob o chicote dos Faraós do Egito, Deus ouviu, viu e desceu para libertá-los. A Igreja de Cristo não pode tapar os ouvidos diante de tantos que gritam, as vezes dentro da própria comunidade, a Igreja de Cristo não pode abafar o clamor dos pequenos que perderam a esperança e a ela recorrer, deve ser aquela que chama o cego, o acolhe em seu meio, coloca as pastorais a disposição para lhe curar as feridas, e mais ainda, o encoraja a fazer esse encontro pessoal com aquele que é a Vida, a Verdade, o caminho. Coragem! Levanta-te, Ele te chama! Jesus chama esse homem cego, morto, como um dia chamou a Lázaro, inerte no fundo de uma sepultura. O chamado de Jesus é para a Vida, para desencostarmos do barranco do comodismo, e de olhos bem abertos, na visão da Fé, abraçar o discipulado com coragem e desprendimento. Impressionante a reação do cego, ao saber que Jesus o chamava, sentiu-se importante, deu um salto e foi ter com ele, jogando a capa de lado. Era a única coisa que possuía, mas despojou-se dela ao conhecer Jesus, ao descobrir-se amado e querido por Deus, ao sentir que todo esse amor está presente em Jesus, redobra a força e a coragem, descobre a nova razão de viver, por isso consegue “pular” do seu canto, Jesus é o seu protetor, o seu amor o envolverá totalmente, não precisa mais de nenhuma outra capa. O seu desejo de VER, manifestado com simplicidade diante de Jesus, foi atendido, “Vai, a tua fé te salvou” – lhe dirá o Senhor. Ir para onde? Para o caminho do discipulado. Salvos pela fé, todos os que fizeram e fazem, essa experiência de ter uma nova visão, no encontro pessoal com Jesus, tornam-se seus discípulos, ontem e hoje, e todos juntos, enquanto Igreja, deixam-se conduzir pelo dinamismo desta vida nova, percorrendo as estradas do mundo, para encorajar os que estão á margem, e chamá-los para se encontrarem também eles com Jesus, a Luz Verdadeira, diante da qual as trevas não resistem…

8 – MESTRE, QUE EU VEJA

O cego de Jericó é o protótipo do homem e da mulher que se deixaram escravizar pelo pecado e têm a sua visão obscurecida para as realidades espirituais. O pecado nos estaciona, nos escraviza e nos deixa sem perspectivas nos impedindo de enxergar as maravilhas que Deus realiza na nossa vida. Por causa dele nós ficamos à beira do caminho, isolados das graças e bênçãos que nos foram destinadas. O grito de Bartimeu é também o brado que parte da nossa alma que anseia pelo perdão e pela misericórdia de Deus quando nos sentimos afastados do povo de Deus por causa das condições em que estamos vivendo. Mesmo que aparentemente não deixemos transparecer, a nossa alma grita pedindo socorro, como aconteceu com o cego. O que nunca poderemos esquecer é que Jesus está sempre perto de nós, sentado também conosco, esperando a nossa invocação. Mesmo que aqueles que O acompanham não nos reconheçam e achem que somos indignos de ficar perto do Mestre, Ele nos acolhe e anseia pelo nosso regresso. Bartimeu foi insistente e corajoso e deu uma prova da sua fé apesar da sua situação de penúria. Com o gesto de se desfazer do manto que o cobria, ele jogou fora a sua vida pregressa, toda a carga que levava sobre os ombros e se entregou sem restrições aos cuidados de Jesus. “Mestre, que eu veja”, foi o seu único pedido. Ele não se justificou nem acusou a ninguém pela sua desgraça, apenas confiou na misericórdia de Deus que cura, salva e liberta. Assim também nós precisamos fazer: reconhecer a nossa cegueira causada pelo pecado, pedir piedade ao Senhor, jogar fora o manto que pesa nos nossos ombros para acolher a cura da nossa alma. Aí então, nós poderemos nos ajuntar aos outros que caminham com Jesus para sermos Seus discípulos na busca de outros Bartimeus que também estão sentados, mendigando às margens da vida. Jesus quer se deixar encontrar por todos que se encontram assim e está atento ao nosso chamado Reflitamos – Como você está atualmente, sentado à beira do caminho ou caminhando com o povo de Deus? – Há alguém que você conhece hoje que está nesta situação do cego Bartimeu? – Você tem enxergado as maravilhas de Deus na sua vida? – Você já jogou fora o manto que o impedia de ver Jesus? Amém. Abraço carinhoso.

9 – O QUE QUERES QUE EU TE FAÇA?

Nesta cultura do aceleramento em que vivemos, quase sempre não enxergamos o irmão que sofre, os que estão esquecidos às margens do caminho, necessitados de uma mão estendida que o ajude a reerguer-se. Às vezes, preferimos ser “cegos”, diante as inúmeras injustiças que desfilam a todo instante diante dos nossos olhos, para não nos comprometer, achamos que estas injustiças, não é problema nosso. Mas Jesus vem nos mostrar o contrário, nos afirmando com o seu próprio testemunho, que podemos e devemos fazer algo em defesa dos empobrecidos. Jesus, no seu infinito amor, vem nos libertar da pior de todas as cegueiras: a cegueira de quem não quer enxergar. A presença de Jesus, acalenta, inspira confiança, os seus ouvidos capita o grito dos excluídos! As ações vivificantes de Jesus, nos desperta para a responsabilidade que devemos ter, não somente com a nossa vida, mas também com a vida do outro! Como seguidores de Jesus, somos corresponsáveis pela vida do nosso irmão! O maior testemunho do cristão, é o amor a Deus e ao próximo, aí se resume a lei e o sentido do grande mandamento que nos faz entender que é amando o próximo que amamos a Deus! Por onde Jesus passava, Ele atraia multidões, as pessoas gostavam de ouvi-Lo, de buscar Nele a cura dos seus males, mas nem todos eram curados, muitos ainda não tinham uma fé consistente que tocasse Jesus: “Vai, a tua fé te curou”. O evangelho de hoje, nos presenteia com o belo relato de uma cura milagrosa realizada por Jesus, revelando definitivamente a presença do Reino de Deus entre os homens. Caminhando para Jerusalém, juntamente com os seus discípulos e uma grande multidão, Jesus, passando pela cidade de Jericó, sente ressoar nos seus ouvidos, um pedido de socorro. O grito partia de um cego chamado Bartimeu, cuja cegueira era apenas a privação de um dos seus sentidos, ou seja, uma cegueira física e não espiritual. Sentado à beira do caminho, aquele cego percebe o que muitos de nós, ainda hoje não percebe; a passagem de Jesus pela nossa vida! A fé do cego de Jericó, ainda que imperfeita, era mais luminosa do que a vista dos que enxergavam. Bartimeu, reconhece em Jesus a presença transformadora do poder de Deus, um poder que liberta os excluídos, estes, que são jogados à beira do caminho, por uma sociedade que tenta abafar o sua voz. O grito do cego incomodou aqueles que não queriam que Jesus interrompesse aquela caminhada, mas quanto mais tentavam calar a sua voz, mais alto ele gritava e o seu grito de fé, tocou Jesus: “Filho de Davi tende piedade de mim”! Tomado de compaixão, Jesus para e diz: “Chamai-o”! Os mesmos que tentaram calar a voz do cego, agora o encorajam: “Coragem, levante-te, porque Jesus está chamando você”. Movido pela fé, Bartimeu larga tudo, isto é, o único bem que possuía; um manto e vai ao encontro de Jesus. Dirigindo-lhe a palavra, Jesus pergunta: “O que você quer que eu faça?” – “Mestre, que eu veja”! A resposta de Jesus, como sempre, uma resposta de amor, transforma a vida daquele homem: “Vai a tua fé te curou.” No mesmo instante aquele que era cego, passou a enxergar. Sua cura é fruto da sua fé. Curado, ele faz do caminho de Jesus, o seu caminho, tornando um seu fiel seguidor, um modelo para todos nós, que queremos “seguir Jesus, rumo a uma nova Jerusalém. A princípio, pode nos parecer estranho Jesus ter lhe perguntado: ”Que queres que eu faça por você”? Certamente Jesus sabia o que ele queria, mas Ele desejava ouvir dos seus próprios lábios. Com isto, Jesus nos ensina que a oração é um exercício de fé que aprimora também o nosso relacionamento com Deus, um pedido: é uma oração! Era importante curá-lo por inteiro, tomá-lo pela mão e colocá-lo de pé, inserindo-o na sociedade. Ao ser curado, Bartimeu sente ampliar a sua visão espiritual, ele não foi embora para viver a vida à sua maneira, passou a seguir Jesus, não ficou mais sentado à beira do caminho, mas no caminho…

10 – O CEGO BARTIMEU

No Evangelho de hoje nos deparamos com um cego pobre e mendigo, sentado à beira da estrada. Como sempre, a palavra de Deus é muito atual. Quantos pobres, cegos ou coxos encontramos no nosso dia-a-dia, sentados à margem das calçadas ou jogados pelas esquinas, e nem percebemos suas presenças. Este fato também passaria despercebido, nunca ficaríamos sabendo do ocorrido se Bartimeu não fosse persistente, corajoso e dono de uma fé sem limites. Sabia o que queria e sabia onde buscar a solução. Sua esperança era o Filho de Davi. Somente Ele tinha a solução para o seu problema. Jamais vira Jesus, mas acreditou em tudo aquilo que Dele se dizia. Tratou de aproximar-se e, com muita fé, pediu ajuda. Era cego e diante da impossibilidade de ir até ao Nazareno, começou a gritar. Gritou tanto a ponto de incomodar a multidão que rodeava Jesus. Mandaram que se calasse. Não queriam ser incomodados, pois estavam ouvindo Jesus. O comportamento do povo é algo que deve ser ressaltado neste episódio. Quantas vezes mandamos calar-se aquele que nos pede ajuda, muitas vezes com a desculpa que não podemos atendê-lo, pois estamos ouvindo Jesus. Não queremos ser incomodados no nosso momento de oração e de louvor, não queremos interrupções durante nossa conversa com o Mestre. Ainda bem que as mesmas pessoas que não queriam ser incomodadas e que mandavam o cego calar-se ficaram muito animadas quando Jesus o chamou. Felizes correram até Bartimeu dizendo, vai, Ele te chama e, provavelmente, devem tê-lo guiado até Jesus. A felicidade do povo, essa mudança repentina é sinal de que ouviram e entenderam a mensagem de Jesus. Estavam diante do Salvador do Mundo, diante Daquele que tudo pode. Trataram então de encorajar aquele enjeitado. Deixam de repreendê-lo e o animam para que se aproxime de Jesus. Bartimeu também não pensou duas vezes. Bastou ouvir o chamado para jogar de lado o seu manto e dar um pulo em direção a Jesus. Essa pressa e essa disposição de Bartimeu é uma grande lição para cada um de nós. Ao ouvir o chamado de Jesus, devemos correr prontamente ao seu encontro. Mais uma vez Jesus quis mostrar que veio para os pobres, para os pequeninos e sofredores. Apesar de já saber a resposta, Jesus perguntou-lhe o que queria. Jesus fez esta pergunta, pois queria ouvir o pedido do cego e queria também provocar a profissão de fé daquele homem. Sabia que dele receberia uma grande demonstração de fé no poder e no amor de Deus. Bartimeu nos deixa aqui um grande exemplo, basta pedir com fé para Jesus atender. É preciso acreditar e aproximar-se com simplicidade e confiança. Bartimeu nos ensina também a fórmula infalível de oração, dizendo: “Senhor, tende piedade de mim!” Uma oração simples, mas carregada de fé. Assim é a oração que Jesus entende. Bartimeu representa a humanidade que desconhece a Verdadeira Luz e por isso padece na escuridão das trevas. Precisamos levar Luz ao mundo. Um mundo que precisa recuperar a sua fé, que precisa correr humildemente aos pés de Jesus e pedir que lhe seja devolvida a luz da verdade e da vida. Para recuperar a fé é necessário reconhecer a própria cegueira e, como Bartimeu, reconhecer-se pobre e necessitado. Voltaremos a enxergar quando nos aproximarmos de Jesus suplicando seu perdão e sua graça através destas palavras: “Senhor, abre meus olhos, faz com que eu veja!”

11 – MESTRE, QUE EU VEJA!

O livro de Jeremias mostra um aspecto da manifestação de Deus de uma forma que não estamos acostumados: a ternura. Deus nos ama sem se importar se vamos pela vida como cegos ou coxos, isto é, se a duras penas podemos caminhar ou se apenas vemos ou pressentimos por onde vamos. Deus nos ama, quer estejamos em estado de vulnerabilidade ou debilidade absoluta, como o pode estar uma mulher grávida ou uma mãe que recém deu à luz seu filho. Deus nos ama, inclusive em nossas fugas dele e nos refugiamos no último confim da terra. E a razão desse amor é que somos seus filhos, engendrados por amor, partícipes do seu reino. Uma das insistências de Jesus era a de viver a experiência amorosa de Deus como a essência sobre a qual se funda a nossa vida; e não porque estivesse em sintonia com a sensibilidade religiosa de seu tempo. O salmo harmoniza com a primeira leitura e mostra como a magnificência de Deus consiste no resgate e redenção de seu povo. A experiência do exílio já não é a de viver em um país estrangeiro, mas a de sentir que nenhum lugar do mundo é estranho ao projeto transformador de Deus. A segunda leitura, da carta aos Hebreus, confirma essa dimensão do poder de Deus manifestado como compaixão e misericórdia. Ele redime nossas faltas e nos encaminha para uma experiência na qual convertemos em fortaleza nossas debilidades humanas. Ele nos oferece um caminho de redenção que supera o puro projeto religioso, a simples justificação sentimental ou um vazio racionalismo abstrato. Deus nos chama e nós podemos responder. Já não queremos um guru ou um especialista em religião, mas um irmão ou uma irmã que caminhe conosco e nos ajude a realizar essa vocação pela qual nos tornamos cristãos. O evangelho de Marcos narra a cura do cego Bartimeu, o último “milagre” de Jesus narrado por Marcos. Tradicionalmente esta passagem foi incluída no gênero dos “milagres”, porém, se bem examinado, carece de alguns elementos típicos do gênero, como por exemplo o gesto ou a palavra de cura. Provavelmente estejamos diante de um relato baseado em um fato histórico, que acentua, sobretudo, a importância da fé como fundamento do discipulado. O relato, mesmo sóbrio, está carregado de detalhes. Marcos indica o lugar onde acontece o episodio: na saída de Jericó, a cidade das palmeiras no meio do deserto de Judá, a porta de entrada na terra prometida (cf Dt 32,49; 34,1), passagem obrigatória para os peregrinos que vinha da Galileia, pelo caminho do Jordão, a Jerusalém, cidade da qual dista 30 quilômetros. A Jericó do tempo de Jesus havia surgido em torno de uma luxuosa residência de inverno, construída por Herodes. Há, além disso, uma alusão explicita, ainda que não tão genérica, ao nome do cego: Bartimeu, o filho de Timeu. Mateus e Lucas não mencionam esse detalhe. Junto com o de Jairo, é o único nome próprio que aparece em Marcos antes de iniciar o relato da paixão. Alguns pensam que isto é devido ao fato de que provavelmente este homem tenha tomado parte da comunidade cristã palestinense. O protagonista é um homem cego, duplamente pobre, portanto, Lv 19,14; Dt 27, 18; Is 59,9 são textos que nos ajudam a compreender a situação dos cegos em Israel. A liturgia estabeleceu um nexo entre este evangelho e a primeira leitura de Jeremias porque em ambos os casos se fala de um acontecimento animador para os cegos. O diálogo começa com um pedido de Bartimeu, de fundo veterotestamentario (cf Os 6,6), e que a liturgia eucarística incorporou no ato penitencial: “Tem compaixão de mim”. O pedido vai precedido pelo título messiânico de filho de Davi. Esta é a única vez que aparece este título no evangelho. Posteriormente o cego o chamará “rabbuni” (termo que podemos traduzir por “mestre” e que Marcos mantém o original). As pessoas pedem que o homem se cale para que não cause transtorno. Esta ordem não tem nada a ver com o “segredo messiânico”, tão típico de Marcos, já que aqui quem manda calar não é Jesus e sim o povo. Quando o cego se dá conta de que Jesus o chama, “joga o manto” e se aproxima de Jesus. Este detalhe aparecem também em 2Rs 7,15. É uma maneira de indicar o entusiasmo produzido por um acontecimento. O diálogo posterior é uma narrativa esquemática: uma pergunta, um pedido e resposta. Como já foi indicado antes, faltam o gesto e as palavras da cura. O acento recai na força da fé. Esta é a que permite passar da treva para a luz, da beira do caminho ao seu interior, da passividade de quem mendiga à atividade de quem segue Jesus até o final. Hoje se fala muito das terapias curativas através da medicina natural, das técnicas psicológicas, das tradições budistas, dos fluxos de energia; fala-se dos problemas psicossomáticos, cuja cura pode ser alcançada estimulando a energia positiva da pessoa. Assim, os milagres ficam mais esclarecidos e se tornam muito mais explicáveis… A vida é cheia de “milagres” para quem sabe conduzi-la. A “inteligência emocional” (cf. Daniel Goleman), a “inteligência ecológica” (do mesmo autor), a “inteligência espiritual” (cf. Danah Zohar), o holismo, a sinergia… por tudo isso somos transladados para um “realismo mágico”, possível de ser alcançado. Os milagres de nossa fé não precisam ser milagres “metafísicos”, “sobrenaturais”… Ao menos os milagres realizados por Jesus de Nazaré parece que não foram assim, e os milagres nossos de hoje também não têm razão de serem assim. Talvez se trate de “educar os olhos” com essa inteligência emocional, ecológica, espiritual… em todo caso, não na visão linear na qual fomos educados no velho paradigma…

12 – CORAGEM! LEVANTA-SE PORQUE JESUS ESTÁ CHAMANDO VOCÊ.

Comecemos nossa meditação da Palavra de Deus com a primeira leitura. Muitas vezes, na sua história, o povo de Deus experimentou a escravidão, o exílio e a opressão. Muitas vezes Israel experimentou-se como um nada e viu-se numa escuridão tremenda. Parecia que o povo iria acabar-se! Assim, por exemplo, em 722 a.C., quando os assírios varreram do mapa o reino do Norte, o Reino de Israel e, em 597 e 587 a.C., quando os israelitas do Reino de Judá foram levados para o exílio em Babilônia. É quase um escândalo, mas é verdade: a história do povo de Deus é uma história de dor e de angústia! Pois bem, é no meio de tal angústia e escuridão que o profeta fala hoje e diz palavras de esperança, de ânimo e de alegria: “Exultai de alegria, aclamai a primeira entre as nações! Eis que os trarei do país do Norte e os reunirei desde as extremidades da terra”. No meio da desgraça, Deus consola o seu povo: irá salvá-lo, reuni-lo, fazê-lo reviver. Mas, quem é esse povo? No que se tornou? Quem somos nós, povo de Deus? “Entre eles há cegos e aleijados, mulheres grávidas e parturientes. Eles chegarão entre lágrimas e eu os receberei entre preces, eu os conduzirei por torrentes d’água por um caminho reto onde não tropeçarão… tornei-me um pai para Israel e Efraim é o meu primogênito”. O Israel que vai experimentar a salvação de Deus é um povo pobre, capenga, humilde… um povo que não conta nada aos olhos do mundo! Como não recordar as palavras de São Paulo aos coríntios? “Vede quem sois, irmãos, vós que recebestes o chamado de Deus; não há entre vós muitos sábios segundo a carne, nem muitos poderosos, nem muitos de família prestigiosa. Mas o que é loucura no mundo, Deus o escolheu para confundir os sábios; e, o que é fraqueza no mundo, Deus o escolheu para confundir o que é forte; e o que no mundo é vil e desprezado, o que não é, Deus escolheu para reduzir a nada o que é” (1Cor. 1,26-28). Quando pensamos na nossa civilização atual, nos nossos valores, exaltando a eficiência, a riqueza, o conforto, o bem-estar, o vigor e forma física, a saúde… Como os critérios de Deus são diferentes! Israel é imagem da Igreja e é imagem de cada um de nós, membro do povo de Deus da nova Aliança. À medida que descobrirmos nossas pobrezas pessoais e eclesiais, podemos também ter certeza que o Senhor não nos abandona: ele nos chama, ele nos reúne, ele nos salva: “Entre eles há cegos e aleijados, mulheres grávidas e parturientes”, gente fraca, gente sem força, gente incapaz de se defender… Mas, Deus é nossa defesa: defesa da Igreja, defesa de cada um de nós! Se caminharmos, muitas vezes, chorando, semeando com lágrimas o caminho de nosso seguimento de Cristo, haveremos de voltar cantando, na força e na graça do Senhor: “Mudai a nossa sorte, ó Senhor, como torrentes no deserto. Os que lançam as sementes entre lágrimas, ceifarão com alegria. Chorando de tristeza sairão, espalhando suas sementes; cantando de alegria voltarão, carregando os seus feixes”. Somente pode experimentar isso aqueles que sabem e experimentam que são pobres diante de Deus, aqueles que sentem sua própria fraqueza! Esta é a experiência que o cristão deve fazer sempre na sua vida, seja pessoalmente, seja como Igreja! Somos pobres, mas Deus é nossa riqueza; somos fracos, mas Deus é nossa força! Agora podemos deter-nos no Evangelho de hoje, que mostra de modo maravilhoso essa experiência cristã de ser salvo por Deus em Jesus Cristo. Jesus está saindo de Jericó, já está perto de Jerusalém, onde morrerá. Uma multidão o acompanha: barulho, empurra-empurra, aglomeração, aperreio… À beira do caminho, havia um cego mendigo… Ele era ninguém, nem nome tinha… Marcos só diz que era o “bar-Timeu”, o filho de Timeu… Cego, incapaz de caminhar sozinho, esmolando, sentado à margem do caminho de Jericó e da vida. Este cego é a humanidade; este cego é cada um de nós! Mas, ele ouve o rumor, a confusão no caminho e quando ouviu dizer que Jesus estava passando, não perde tempo; é a chance de sua vida! Ele grita alto: “Jesus, filho de Davi, tem piedade de mim!” Repreendem o cego, mas ele grita com voz mais forte! Ele sabe que é a chance da sua vida. Santo Agostinho dizia: “Eu temo o Cristo que passa”… É preciso não perder a chance, é preciso gritar… não deixar o Cristo passar em vão no caminho da nossa existência! O grito do cego é já um grito de fé. Chamando Jesus “filho de Davi”, o Bartimeu está dizendo que crê que Jesus é o messias: “Filho de Davi, tem piedade de mim!” Repreendem o cego… como o mundo quer nos repreender, quer nos impedir e ridicularizar quando nos reconhecemos cegos, pobres e coxos e gritamos por Jesus: “Filho de Davi, tem piedade de mim!” Mas o cego insiste; grita mais alto ainda! Então, apesar da distância, apesar da multidão, apesar do empurra-empurra, Jesus escuta o clamor do cego! Como não recordar, comovidos, as palavras do salmo 129? “Das profundezas eu clamo a vós, Senhor; escutai a minha súplica!” Ninguém grita pelo Senhor do fundo da sua miséria e fica sem ser ouvido! “Então, Jesus parou e disse: ‘Chamai-o’. O cego jogou o manto, deu um pulo e foi até Jesus”. Cego esperto, esse: não perde tempo, dá um pulo, deixa tudo, desembaraça-se do manto e corre para Jesus! Ele segue o conselho do Autor da Carta aos Hebreus: “Também nós, rejeitando todo fardo e o pecado que nos envolve, corramos com perseverança para a corrida que nos é proposta, com os olhos fixos naquele que é o Autor e Realizador da fé, Jesus” (12,1s). Quem dera, fizéssemos assim também: largássemos tudo, deixássemos nossas tralhas e bagulhos, nossos apegos e quinquilharias e corrêssemos para Jesus! E Jesus? Que delicadeza! Não vai logo curando, como esses curadores de televisão, os falsos profetas da telinha, os RR Soares e Edir Macedos da vida! O Senhor deseja encontrar as pessoas, ouvi-las, com todo respeito: “O que queres que eu te faça?” O pedido do cego é comovente; é o nosso pedido: “’Mestre, que eu veja!’ Jesus disse: ‘Vai, a tua fé te curou’”. Este deve ser o nosso pedido, mas, para isso é necessário ter a humildade de se reconhecer cego, pobre, necessitado! “Senhor, eu sou o cego do caminho! Cura-me, eu te quero ver!” O cego foi curado… “e seguia Jesus pelo caminho”. Curado, iluminado por Jesus, agora seguia Jesus como discípulo, caminhando com ele para Jerusalém, para com ele morrer e com ele ressuscitar. Esta é a nossa vocação, este deve ser o nosso itinerário, a nossa experiência de fé! “Senhor, tua Igreja, peregrina no mundo, é um povo de pobres, de frágeis seres humanos. Mas confiamos em ti! Não queremos colocar nossas força ou esperança no nosso prestígio, ou nas riquezas ou nos amigos poderosos o nos elogios do mundo. Não! Tu somente és nossa força! Salva-nos, Senhor! Reúne-nos, Senhor! Ilumina-nos, Senhor! Dá-nos a graça de reconhecer que somente na tua luz poderemos ver a luz! O mundo chama luz, sabedoria e esperteza a coisas que são inaceitáveis aos teus olhos! Senhor, abre nossos olhos para caminharmos na tua luz até a cruz, até a ressurreição, até à vida. Senhor, arranca-nos da nossa cegueira. Amém”. Tomemos hoje a Palavra de Deus pensando na nossa pobreza; na minha como sacerdote, na sua como leigo, na pobreza de toda a Igreja, povo santo de Deus. Amados no Senhor, a nossa fé, a nossa salvação, toda a experiência do cristianismo dá-se num misterioso encontro entre a riqueza misericordiosa de Deus e a humana pobreza, a nossa pobreza. E isto é dificílimo de ser compreendido, aceito e vivenciado por uma humanidade que se julga material e racionalmente autossuficiente, por nós, que dizemos que temos direito a tudo, não devemos nada e não queremos favores de ninguém. E, no entanto, a Palavra santa no diz que diante de Deus somos pobres, necessitados, deficientes. E somente reconhecendo esta realidade encontramos a nossa verdade mais profunda e a salvação! Somos pobres, mas amados; somos frágeis, mas aconchegados entre as benditas mãos do Senhor. É ele nossa riqueza, é ele nossa esperança e auxílio. Mas, vejamos isso na Palavra de Deus que acabemos de ouvir… Comecemos pelo Evangelho, com esta comovente história do cego de Jericó. Esse cago nos representa; ele é cada um de nós, ele é a Igreja toda. Não tem nome, este homem: é somente o bar Timeu, isto é, o filho de Timeu; é cego e mendigo, sentado à margem da estrada da vida. Esta, meus caros, é a nossa situação sem Cristo. Em certo sentido, esta será sempre a nossa situação, pois somos sempre necessitados de Cristo, sempre pobres, sempre dependentes. Esta é também a situação da Igreja toda. Não é ela aquele povo de Deus que o Senhor liberta do cativeiro e vai conduzindo? Não é ela aquele pobre resto, formado por cegos, aleijados e mulheres em estado de fragilidade? Recordem, meus irmãos, as características daqueles a quem o Senhor chama na primeira leitura desta Missa: “Salva, Senhor, o teu povo, o resto de Israel. Entre eles há cegos e aleijados, mulheres grávidas e parturientes. Eles chegarão entre lágrimas…” A Igreja será sempre isto: um resto, feito de pobres, formado por pessoas frágeis, que experimentam as lágrimas e provas da vida, as quedas e debilidades na estrada da existência… A Igreja de Cristo será sempre aqueles que caminham entre preces, colocando no Senhor sua esperança. Nosso arrimo, caríssimos, é somente o Senhor! Pobre cada um de nós, pobre a Igreja, pobres também os que o Senhor constitui como seus sacerdotes… A segunda leitura os apresenta tendo como modelo o único e perfeito sacerdote, modelo de todo sacerdote do povo cristão: Jesus Cristo. Quem é o sacerdote? Um pobre homem, vaso de eleição e vaso de argila, tirado do meio dos homens e colocado em favor dos homens não em qualquer assunto, mas nas coisas de Deus. Qual a sua missão central? Oferecer o Santo Sacrifício de Cristo pelos pecados próprios e do mundo inteiro. Mas, aqui, compreendamos bem: o Sacrifício eucarístico oferecido sobre o Altar não se resume ou se esgota no Altar, mas deve ser vivenciado e prolongado no serviço total ao povo de Deus e à humanidade. Serviço na pregação, serviço de pastoreio na coordenação e animação dos irmãos, serviço na oração, na celebração dos santos mistérios, na orientação espiritual, na promoção humana dos irmãos… Como Cristo, o sacerdote deve ser cheio de compaixão pelas fraquezas humanas, pois ele próprio é fraco. Assim, como a Igreja e como cada um de nós, também o sacerdote deve ser consciente de sua total dependência e necessidade do Senhor. Ele não tem nada de próprio para dar. Pelo contrário: sua missão será tanto mais eficaz, tanto mais verdadeira, quanto mais ele deixar que Cristo transpareça nele. O Sacrifício da Missa, por ele oferecido todos os dias, com o povo santo e em nome do povo santo, é expressão clara de que tanto ele quanto toda a Igreja não vivem de suas próprias forças e virtudes, mas somente da graça de Cristo, que brota continuamente do sacrifício pascal do Senhor. Portanto, nós padres somos pobres sacerdotes no meio de um povo de pobres, que deve vencer a tentação da autossuficiência, da soberba, tão característica do mundo atual, e colocar sua esperança somente no Senhor, comprometendo-se com toda a vida somente com ele e com a sua vontade. Quão grande é a tentação de ser padre do nosso jeito, como se fôssemos donos do ministério e do rebanho! Que tentação manipular a doutrina, a liturgia, os conselhos… Não! Somos apenas servos, somos apenas embaixadores de Deus e administradores do seu mistério. O que se espera de nós é que sejamos fiéis! E que tentação do rebanho, a de querer fazer uma doutrina do seu modo, sob medida, uma moral a gosto da moda, um cristianismo fácil e burguês, sem exigências e sem conversão contínua… Mas, caros irmãos pobres, que escutam agora um sacerdote mais pobre ainda, voltemos ao cego do caminho. Aprendamos com ele, porque ele hoje nos serve de modelo no modo como agir diante do Cristo que passa pela estada da nossa vida! Esse cego reconhece sua miséria e grita a Jesus com todas as suas forças. Seu grito é uma profissão de fé em Jesus: “Filho de Davi, ele exclama, tem piedade de mim!” Ele tem consciência que é pobre, necessitado, precisado da misericórdia e da cura de Jesus. Ele sabe que é cego… Bem diferente do mundo atual, bem diferente de nós, às vezes, que teimamos que estamos vendo quando agimos como cegos… Observem como querem calá-lo, como querem que ele não grite por Jesus! Não é a mesma coisa que a Igreja sofre do mundo? Não é a mesma coisa que o nosso orgulho deseja fazer conosco? Querem nos calar, querem que não reconheçamos que somos pobres cegos e precisamos de Jesus! Querem reprimir nossa sede, sufocar nossa procura, matar nosso desejo! – Nós, no entanto, continuemos a gritar: Senhor Jesus, Filho santo e bendito de Deus, tem piedade de mim, tem piedade da tua Igreja! Sê nosso socorro, nosso perdão, nossa força! Sê a luz dos nossos olhos, tu que venceste o Maligno e a Morte e fizeste brilhar para nós a luz e a vida imperecível (cf. 2Tm. 1,10). Senhor, que eu possa ver novamente: ver com teu olhar, ver na tua luz, ver a tua verdade, que faz a vida valer a pena e não ser uma existência vazia! Observem, meus caros, como Jesus, apesar do ruído da multidão, escuta o cego, ouve aquele que grita das profundezas de sua miséria! Ouve e o chama para si! E o cego, dando um pulo e deixando cair o manto no qual guardava seu dinheiro, corre para Jesus! Bendito cego: primeiro soube reconhecer a cegueira, depois teve discernimento para reconhecer o Cristo que passava na sua vida, em seguida teve a coragem de gritar por Jesus pedindo ajuda; e agora, tem a sabedoria de deixar tudo: pula apressado, não perde tempo com o manto, e vai ao encontro do essencial: encontrar Jesus! Eis, então: a miséria diante da Misericórdia, o cego diante de Jesus. E a Misericórdia pergunta à miséria: “Que queres que eu t e faça?” E a miséria não perde tempo, não pensa em futilidades; vai direto ao essencial: “Mestre, que eu veja!” – Senhor, abre os meus olhos às maravilhas do teu amor! Eu sou o cego do caminho: cura-me, eu te quero ver! – E Jesus, a Misericórdia infinita, responde: “A tua fé te curou!” Eis o fruto da humildade de quem se reconhece pobre e pequeno, de quem se reconhece pecador: a cura, a luz, o poder contemplar Jesus. Que alegria daquele Bartimeu poder ver Jesus, dirigir o olhar para o Senhor, manter seus olhos no Senhor, que alegra a nossa vida! E não só. Vejam como termina a narrativa do Evangelho: “Recuperou a vista e seguia-o pelo caminho!” Ó caríssimos, que também nós nos deixemos curar de nossa cegueira e possamos ver Jesus e tenhamos a coragem de segui-lo pelo caminho! – “Salva, Senhor, o teu povo, o resto de Israel!“ por torrentes d’água, por um caminho reto onde não tropecemos!

13 – DEUS VEM EM NOSSO SOCORRO E NOS LIBERTA

As leituras bíblicas deste domingo nos introduzem no mistério do amor de Deus que se solidariza com as pessoas que sofrem e oferece – lhes a libertação de todos os males. É o Deus sempre fiel à Aliança que estabeleceu com o seu povo. Em qualquer situação histórica ele se encontra muito próximo, ouve as súplicas, acolhe as dores e indica-lhes os caminhos de vida e de liberdade. O profeta Jeremias proclama uma palavra de coragem e de esperança aos aflitos e desanimados no exílio da Babilônia: “O Senhor salva o seu povo!”. E Deus confirma que haverá de reunir o povo disperso, “entre eles há cego e aleijado, a mulher grávida e que dá à luz, todos juntos”, porque ele é Pai de todos (1ª leitura). Seu amor se manifestou de modo pleno em seu filho Jesus Cristo que veio para libertar o ser humano, sendo uma boa notícia aos excluídos como aquele cego, à beira do caminho, chamado Bartimeu, conforme narra o evangelho de Marcos. Sua cegueira reflete a dos discípulos que não conseguem entender que tipo de Messias é Jesus. Será compreendido somente após sua morte e ressurreição. É o Messias, Filho de Deus, que se entregou livremente para a vida do mundo. Ele é o sumo e eterno sacerdote, “capaz de ter compreensão por aqueles que o ignoram e erram” (2ª leitura). Em Jesus e com Jesus também nós assumimos o papel sacerdotal oferecendo a nossa vida como dom para Deus e para os irmãos. 1ª leitura (Jr. 31,7-9) – O Senhor salva o seu povo. Jeremias foi um profeta ativamente engajado na política de seu tempo. Sua atuação se dá em várias etapas entre os anos de 630 a 580 a.C. O Reino do Norte (ou Efraim) fora invadido e destruído em 722 a.C. pelos assírios. Há muitos exilados na Assíria. Internamente, o povo sofre com a política centralizadora do rei Josias (cf. 2Rs. 22-23). Além disso, Jeremias participou dos fatos que culminaram com a invasão do exército babilônico, a destruição do templo e da cidade de Jerusalém. Uma parte da população de Israel é deportada (cf. 2Rs. 24-25). Devido à sua ação profética, Jeremias foi perseguido, preso e teve de fugir para o Egito, onde morreu. O texto da liturgia deste domingo faz parte do chamado “livro da consolação” (Jr. 30-31), onde, por ordem de Deus, Jeremias anuncia aos exilados um futuro de paz, de liberdade e de alegria na terra de Israel. Todos os exilados serão reunidos dos confins da terra e voltarão à sua pátria. Isso acontecerá por obra gratuita de Deus. É boa notícia que culminará com a celebração de uma nova Aliança: “Então serei seu Deus e eles serão o meu povo… Todos me conhecerão, dos menores aos maiores, porque perdoarei sua culpa e não me lembrarei mais do seu pecado – oráculo do Senhor” (Jr. 31,31-34). A sociedade que Jeremias sonha com a volta dos exilados não é a restauração da monarquia, mas a fidelidade à Aliança com Deus. Ele liberta o seu povo da opressão do mais forte. Deus apresenta-se como “pai para Israel”, que reúne os filhos dispersos e reconstitui sua família. Ninguém deverá ficar de fora. Os cegos, os aleijados e as mulheres grávidas são especialmente lembrados. Todas as pessoas fracas e indefesas recebem o cuidado prioritário. As mulheres grávidas e que dão à luz prenunciam o futuro de vida e alegria para o povo. A profecia cumpre a missão de animar a esperança militante no meio das pessoas vítimas da opressão e da violência dos grandes. Deus toma posição e vem salvar os seus filhos e filhas cuja vida está ameaçada. Uma terra de liberdade e vida para todos é vontade de Deus e tarefa nossa. Evangelho (Mc. 10,46-52) – Jesus liberta da cegueira. A cura do cego Bartimeu se dá na última parada de Jesus com seus discípulos antes da chegada em Jerusalém. Como já constatamos nos domingos anteriores, essa viagem, desde a Galileia, constitui-se num caminho pedagógico no qual Jesus se ocupa, de maneira especial, com a formação dos seus discípulos. Percebe-se que, no esquema do evangelho de Marcos, esse caminho está emoldurado entre duas narrativas de curas de cegos: a de Betsaida (8,22-26) e essa do cego à saída de Jericó. O primeiro cego recupera a vista após um processo gradual: Jesus o retira para fora da cidade, cospe-lhe nos olhos e por duas vezes impõe-lhe as mãos. Esse cego de Jericó, para recuperar a vista, Jesus não precisa nem mesmo tocá-lo. O cego de Betsaida é conduzido a Jesus por outras pessoas e não lhe é dado nome próprio; o da saída de Jericó tem iniciativa própria, grita a Jesus de Nazaré sem se deixar intimidar pelos que procuram calá-lo e possui um nome próprio. Podem-se perceber outros detalhes que revelam as diferenças e semelhanças entre os dois relatos. Ambos os cegos são representativos dos discípulos frente ao conhecimento que possuem a respeito de Jesus. De fato, logo após a cura do cego de Betsaida, constatamos a confissão pública de Pedro que fala em nome dos demais discípulos. Teoricamente, ele sabe que Jesus é o Messias, mas não admite que seja vulnerável ao sofrimento e à morte impingida pelas autoridades religiosas e políticas de Jerusalém. Nos discípulos permanece a concepção de um messianismo de poder e glória. Seguir a Jesus, para eles, é a oportunidade para realizar as suas ambições de fama e de domínio, o que provoca discussões internas a respeito de quem seria o maior. Eles estão em situação de cegueira. Compreenderão, pouco a pouco, quem é realmente Jesus e qual sua missão no mundo, conforme o texto de domingo passado: “O Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos” (10,45). O cego Bartimeu representa o estágio conclusivo do processo de abertura dos olhos pelo qual os discípulos estão passando. Não é fácil desvencilhar-se das ideologias dominantes, representadas, nesses episódios, pelas cidades. O primeiro cego, Jesus o retirou de dentro de Betsaida para poder curá-lo. Bartimeu já está fora de Jericó e encontra-se à beira do caminho. Essa situação lembra o ensinamento de Jesus através da parábola da semente: “Os que estão à beira do caminho onde a Palavra foi semeada são aqueles que ouvem, mas logo vem Satanás e arrebata a Palavra que neles foi semeada” (Mc. 4,15). De fato, inicialmente Bartimeu se dirige a Jesus e, por duas vezes, o chama de “Filho de Davi”. Em sua concepção, Jesus seria o Messias à moda de um rei triunfalista. Satanás (que se manifesta nas ideologias dos grandes e poderosos) ainda domina a consciência de Bartimeu, como aconteceu com Pedro quando tentou impedir que Jesus fosse a Jerusalém e seguisse o caminho de um servo sofredor. Jesus reagiu dizendo: “Afasta-te de mim, Satanás, porque não pensas as coisas de Deus, mas as dos homens!” (8,33). Jesus vence Satanás, que cega as pessoas. É necessária, porém, a disposição de deixar-se curar e mudar de mentalidade. É o que fez Bartimeu. Para isso teve de vencer os impedimentos daqueles que mandavam calar-se. Jesus ouviu o seu grito, parou e mandou chamá-lo. Deus ouve o clamor dos oprimidos! Perguntou Jesus: “Que queres que eu te faça?”. O cego já havia se desvencilhado de seu manto, que simboliza suas seguranças pessoais, sua dependência da mendicância, seu passado de atrelamento e de submissão a um sistema excludente. Está pronto para acolher a verdade que liberta, que é Jesus e sua proposta. Agora não se dirige mais a Jesus com o apelativo de “Filho de Davi” e sim com a expressão reverente: “Rabbuni”, que significa “meu mestre”. E manifesta seu profundo desejo, fruto de uma longa busca: “Que eu possa ver novamente”. É sinal que ele um dia enxergava. O veneno de “Satanás”, ou seja, os ideais que não são de Deus, o cegaram. Bartimeu são os discípulos que abrem os olhos com a graça de Jesus e o seguem no caminho da cruz. Bartimeu é cada um de nós: Jesus nos ajuda a abandonar o “manto” do egoísmo e da submissão às ideologias dominantes e tornar-nos conscientes da missão que temos de construir um mundo como casa de vida digna sem exclusão. 2ª leitura (Hb. 5,1-6) – O sacerdócio de Jesus. A carta aos Hebreus apresenta Jesus como sumo e eterno sacerdote. Para que os ouvintes e leitores pudessem entender essa mensagem, os autores tomam como exemplo a função sacerdotal exercida na tradição judaica. O sumo sacerdote era investido da mais alta dignidade como mediador entre Deus e o povo. Sua função é oferecer dons e sacrifícios pelos pecados do povo e também pelos seus. Essa imensa honra só podia ser concedida para quem era chamado por Deus, que, por tradição de fé e legitimação legal, correspondia a alguém da descendência de Aarão. A descrição do sumo sacerdote aqui é idealizada, pois sabemos que essa função no templo de Jerusalém foi, muitas vezes, conquistada por pessoas interesseiras que faziam o jogo da política imperial. Também dificilmente um sumo sacerdote agia tendo consciência de suas próprias fraquezas com a compreensão das fraquezas dos outros. Portanto, a idealização da função sacerdotal visa a contemplar e acolher na fé o novo e definitivo sacerdócio de Jesus Cristo, totalmente superior ao do antigo. Entregando-se como vítima expiatória pelos pecados de toda a humanidade, tornou-se o eterno sumo sacerdote. Ele não entrou na linhagem sacerdotal que oficialmente se concebia no sistema religioso judaico. Não é por descendência de Aarão, e sim “segundo a ordem de Melquisedec”. Essa personagem é de origem misteriosa. Ela aparece a Abraão (Gn. 14,18-20) como “Rei de Salém e sacerdote do Deus Altíssimo”, concedendo a bênção ao pai do povo de Israel. Revela ser superior a Abraão. Com isso, relaciona-se com a superioridade do sacerdócio de Cristo sobre o sacerdócio de Aarão. O nome de Melquisedec significa “em primeiro lugar ‘Rei da Justiça’; e, depois, ‘Rei de Salém’, o que quer dizer ‘Rei da Paz’” (Hb. 7,2). É a figura da missão sacerdotal de Jesus Cristo recebida diretamente de Deus Pai. Ele assumiu a condição humana e é capaz de compreender as fraquezas do ser humano. Com plena humildade e obediência a Deus, ofereceu-se uma vez por todas para a justiça, a paz e a salvação do mundo. Pistas para reflexão: – O Senhor, nosso Deus, vem para nos salvar. Ele é nosso Pai misericordioso. O profeta Jeremias percebe a presença consoladora de Deus no meio do povo exilado. Anuncia a palavra de esperança e alegria, que é a reunião de todos os dispersos na terra onde reina a liberdade e a paz. Ninguém fica de fora: os cegos, os aleijados e as mulheres grávidas que representam as pessoas frágeis e indefesas recebem proteção e carinho especiais… É oportuno relacionar com o mês das Missões… – Jesus é Deus que se fez carne. Caminha com seu povo e ajuda os discípulos a reconhecê-lo como o Messias servidor, curando-os da cegueira das ideologias dominantes. Bartimeu representa todos os que buscam a Jesus com sinceridade. Vence as barreiras dos que desejam impedi-lo. Jesus ouviu o grito de Bartimeu, parou, deu-lhe atenção e a visão foi recuperada. O que nos impede de conhecer e seguir verdadeiramente a Jesus Cristo? Em que “cegueiras” podemos cair hoje? Como podemos nos libertar delas? Pode-se enfatizar a importância de participar do processo de iniciação à vida cristã, dos cursos de formação… – Jesus é nosso mediador junto a Deus Pai. Ele nos conhece integralmente, pois se fez nosso irmão. Deu o exemplo de entrega da vida pela paz e justiça no mundo. Envia e abençoa os seus discípulos missionários para que continuem a sua obra…

14 – O SENHOR QUE SE CHAMA BONDADE

Por vezes, na linguagem do Antigo Testamento, o Senhor é descrito com sentimentos humanos de cólera. Outras vezes, as escrituras santas não encontram palavras adequadas para descrever a bondade, a misericórdia, a munificência do Senhor. Jeremias anuncia ao povo simples, aos doentes, aos que tinham vivido no exílio, na dor, na distância da pátria e do templo que está para terminar o tempo do luto e das lágrimas. Aquele pequeno resto de Israel, fiel ao coração de Deus, estava sendo convidado a começar a peregrinação para a terra da liberdade… “Eles são numerosos. Eu os reunirei de todos os cantos… vejo entre eles os pequenos e os deserdados, cegos e coxos, mulheres grávidas… seus pés ganham força para a grande caminhada do retorno”. Jeremias que tantas vezes havia anunciado castigos e penas agora, em sua fala, ganha um tom de carinho e de meiguice. O Senhor não quer guardar a bondade dentro do peito. “Eles chegarão entre lágrimas e eu os receberei entre preces; eu os conduzirei por torrentes de água, por um caminho reto onde não tropeçarão, pois tornei-me um pai para Israel, e Efraim é meu primogênito”. Os cegos, os surdos, os aleijados, os que haviam ficado de lado… agora serão príncipes na terra nova… Marcos no texto evangélico proclamado descreve a cura de Bartimeu, o filho de Timeu. O relato é comovente. Os pormenores do texto são tocantes. Um cego e mendigo, sentado à beira do caminho, sujo, enlameado, sem esperanças, sem expectativas, prisioneiro de sua solidão. Um cego não quer outra coisa senão a claridade. Jesus já era conhecido. Quando o pobre ouve sua voz se agita, se levanta, grita: “Jesus, filho de Davi, tem piedade de mim. Não tenho ninguém. Essa gente está me impedindo de chegar perto de ti, Senhor. Jesus, tem piedade de mim. Está difícil continuar a viver. Não tenho ninguém, nem alegria, nem coragem…nada”. Jesus olha em volta e tenta descobrir quem o está chamando… ”Aqui estou eu… Há essa gente toda à minha volta… mas tua voz me pareceu angustiante e sincera. O que tu queres?” E o cego: “Mestre, eu quero ver… eu sou extremamente pobre… eu quero ver”. Ora, esse Deus que é bondade, esse Deus que manifestou sua bondade no rosto de Jesus se achega do cego: “Vai, a tua fé te curou”. E o cego ficou curado… Belíssima a conclusão do evangelista: “No mesmo instante ele recuperou a vista e seguia Jesus pelo caminho” Imagino esse novo discípulo olhando as cores das flores, vendo o azul do céu e o rosto de Jesus. O cego quase explodiu de alegria.

15 – JESUS ABRE OS OLHOS A QUEM PROCURA VER

Embora caminho do Servo Padecente, a subida de Jesus a Jerusalém não deixa de ser também a chegada do Messias. Se, nos domingos anteriores, a liturgia acentuou, no paradoxal messianismo de Jesus, o lado da aniquilação, hoje ela insiste num sinal messiânico evidente: a cura de um cego (evangelho). A revelação de Jesus como messias “diferente” surge, portanto, da dialética entre o que se esperava do Messias e o que não se esperava dele. Depois da incompreensão dos discípulos em Mc. 8,14-21, Jesus se manifesta como Messias abrindo os olhos ao cego de Betsaida (8,22-26). Se, por um lado, Jesus proíbe a publicidade (8,26), por outro, os “iniciados” (os discípulos) já viram bastante para que, logo depois, Pedro profira a profissão de fé: “Tu és o Messias” (8,29). Mas ele não sabe o que isso significa, pois ele pensa em categorias humanas (8,33). Ao fim das predições da Paixão, secção em que os discípulos são ensinados a respeito da natureza da missão do Cristo, embora sem a entender plenamente (8,27-10,52), Jesus cura novamente um cego: Bartimeu, o cego de Jericó. A este, Jesus não lhe proíbe publicar o acontecido; pelo contrário, o homem “segue Jesus”. Pois é chegada a hora de revelar seu messianismo, não só aos iniciados, mas à multidão reunida em Jerusalém. A cura de Bartimeu acontece na saída de Jesus de Jericó, na direção de Jerusalém, onde Jesus será acolhido, logo depois, como o rei messiânico (embora a multidão em 11,1ss saiba o que isso implica…). Portanto, podemos dizer que, ao abrir os olhos a Bartimeu, Jesus deixa entrever seu messianismo a todo o povo de Israel. Abrir os olhos dos cegos era um sinal messiânico de destaque. A 1ª leitura traz uma profecia, escrita por Jr para animar o “resto de Israel”, as tribos do Norte, deportadas pelos assírios em 721 a.C., sugerindo-lhes a perspectiva da volta (pois no tempo de Josias, ao iniciar Jeremias seu ministério profético, a Assíria estava muito fraca e Josias reconquistando a Samaria). As tribos serão reunidas. Mesmo os cegos e coxos estarão aí. Bartimeu é o representante desta profecia, quando Jesus sai de Jericó, na direção de Jerusalém, centro da antiga Aliança. Mas Bartimeu é também o protótipo dos que querem ver. Esta é a condição para salvação. Ele é salvo, porque tem fé (10,52). Ele a demonstrou de modo palpável, insistindo em chamar a atenção de Jesus, apesar das reprimendas da multidão e dos próprios discípulos. Ele invoca Jesus como Messias (“Filho de Davi”), em plena multidão e Jesus confirma sua invocação pelo atendimento que lhe concede. Pressentimos aqui as multidões de Jerusalém aclamando Jesus como o que traz presente o “Reino de nosso pai Davi” (11,10). Mas, apesar de todo o entusiasmo, ele continuará seu caminho até o Gólgota. A liturgia dos domingos do tempo comum não acompanha Jesus no resto do caminho da cruz: a Semana Santa é que faz isto. Portanto, será bom, neste 30° domingo, fazer uma meditação sintética sobre este caminho, que a alguns domingos estamos acompanhando. Caminho paradoxal, de sinais e desconhecimento, fé e incompreensão, entusiasmo e aniquilação… Cada um traz em si alguma esperança messiânica, alguma utopia. Será que ela corresponde ao critério de Cristo, que mostra ser, ao mesmo tempo, a negação e a plenitude daquilo que esperamos? Para receber em plenitude, precisamos admitir uma revisão daquilo que esperamos. Talvez seja isso que sugere a oração do dia: amar o que Deus ordena e receber o que ele promete. A 2ª leitura é semelhante à de domingo passado. Situa o ser sacerdote de Jesus na sua solidariedade com os homens e com Deus ao mesmo tempo. Participando de nossa condição, santifica-a. É o pontífice por excelência. Não Jesus mesmo, mas também nenhuma instituição humana, lhe conferiu este poder. Ele pertence a uma linhagem sacerdotal que supera até a de Aarão, por ser primeira e de origem desconhecida, misteriosa: a linhagem de Melquisedec (cf. 14,18-20).

MONIÇÕES

MONIÇÃO AMBIENTAL OU COMENTÁRIO INICIAL

Neste domingo da cura do cego de Jericó, Deus nos chama e reúne para agradecermos o seu amor, manifestado na pessoa de Jesus, que cura as nossas cegueiras. O Senhor vence as trevas que impedem nossa caminhada rumo à sociedade fraterna e solidária. Celebremos em comunhão com a juventude, em sua jornada em busca de uma vida plena de sentido.

MONIÇÃO PARA A(S) LEITURA(S) E O SALMO

A palavra de Deus proclama a alegria dos pobres e doentes, a quem é dado ver e experimentar a ação compassiva e libertadora do Senhor. Ele caminha à frente do seu povo e continua fazendo maravilhas em seu favor.

MONIÇÃO PARA O EVANGELHO

Aleluia, aleluia, aleluia. Jesus Cristo, salvador, destruiu o mal e a morte; fez brilhar, pelo evangelho, a luz e a vida imperecíveis (2Tm 1,10).

ANTÍFONAS

Antífona da entrada

Exulte o coração que buscam a Deus. Sim, buscai o Senhor e sua força, procurai sem cessar a sua face (Sl 104,3s).

Antífona da comunhão

Com a vossa vitória então exultaremos, levantando as bandeiras em nome do Senhor (Sl 19,6).

ORAÇÕES DO DIA

Oração do dia ou Oração da coleta

Deus eterno e todo-poderoso, aumentai em nós a fé, a esperança e a caridade e dai-nos amar o que ordenais para conseguirmos o que prometeis. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, Vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.

Preces da Assembleia ou Oração da Assembleia

A exemplo do cego do evangelho, peçamos a Jesus que faça brilhar em nós e no mundo a luz da fé e da verdade. Digamos:

— Jesus, nosso mestre, tende piedade de nós.

— Para que a Igreja viva em profundidade a palavra de Jesus e conduza com sabedoria o povo de Deus, rezemos.
— Para que os ministros ordenados e leigos sejam sinais da compaixão de Deus e consciência iluminadora no meio do povo, rezemos.
— Para que os vacilantes na fé encontrem no evangelho e na celebração eucarística a segurança e a alegria da verdade, rezemos.
— Para que as pessoas com deficiência visual tenham o apoio da comunidade e o respeito e a atenção das autoridades e da sociedade, rezemos.
— Para que a juventude que hoje comemora seu dia, veja e siga sempre com maior clareza o caminho da vida autêntica e digna, rezemos.

Oração sobre as oferendas

Olhai, ó Deus, com bondade, as oferendas que colocamos diante de vós, e seja para vossa glória a celebração que realizamos. Por Cristo, nosso Senhor.

Oração depois da comunhão

Ó Deus, que os vossos sacramentos produzam em nós o que significam, a fim de que um dia entremos em plena posse do mistério que agora celebramos. Por Cristo, nosso Senhor.

Fontes de Consultas e Pesquisas

Vamos expor a seguir, os nomes dos sites e blogs a que pertencem os textos que nos preenchem todos os dias com palavras inspiradas pelo Espírito Santo, nos dando um caminho com mais sabedoria, simplicidade e amor.

FONTE PRINCIPAL DE PESQUISA E INSPIRAÇÃO — “BÍBLIA SAGRADA”.

O importante não é a pessoa que escreve, mas quem inspira essa pessoa a escrever.

O importante não é como se lê o que está escrito, mas como se age.

O importante não é sentar-se à direita ou a esquerda do Pai, mas sim, realizar o trabalho que ele nos pede.

Ter conhecimento não é ter sabedoria, sabedoria é saber compartilhar o conhecimento.

Encontro de amigos com Cristo

Liturgia Diária

A Palavra de Deus na vida

DomTotal.com

Paulinas

Homilia Diária

Evangelho Quotidiano

Evangeli.net

Liturgia Diária Comentada

RCC São Rafael

NPD Brasil

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