Liturgia Diária 04/NOV/12

LEITURA DIÁRIA DA PALAVRA

04/NOV/2012 (domingo)

LEITURAS

Leitura do livro do Apocalipse 7,2-4.9-14 (Livro do novo ou 2º testamento / Livro Profético)

Eu, João, 2 vi um outro anjo, que subia do lado onde nasce o sol. Ele trazia a marca do Deus vivo e gritava, em alta voz, aos quatro anjos que tinham recebido o poder de danificar a terra e o mar, dizendo-lhes: 3 “Não façais mal à terra, nem ao mar, nem às árvores, até que tenhamos marcado na fronte os servos do nosso Deus”. 4 Ouvi então o número dos que tinham sido marcados: eram cento e quarenta e quatro mil, de todas as tribos dos filhos de Israel. 9 Depois disso, vi uma multidão imensa de gente de todas as nações, tribos, povos e línguas, e que ninguém podia contar. Estavam de pé diante do trono e do Cordeiro; trajavam vestes brancas e traziam palmas na mão. 10 Todos proclamavam com voz forte: “A salvação pertence ao nosso Deus, que está sentado no trono, e ao Cordeiro”. 11 Todos os anjos estavam de pé, em volta do trono e dos Anciãos, e dos quatro Seres vivos, e prostravam-se, com o rosto por terra, diante do trono. E adoravam a Deus, dizendo: 12 “Amém. O louvor, a glória e a sabedoria, a ação de graças, a honra, o poder e a força pertencem ao nosso Deus para sempre. Amém”. 13 E um dos Anciãos falou comigo e perguntou: “Quem são esses vestidos com roupas brancas? De onde vieram?” 14 Eu respondi: “Tu é que sabes, meu senhor”. E então ele me disse: “Esses são os que vieram da grande tribulação. Lavaram e alvejaram as suas roupas no sangue do Cordeiro”.

Proclamação do Salmo 23(24),1-2.3-4ab.5-6 (R. cf. 6) (Livro do velho ou 1º testamento / Livros Poéticos e de Sabedoria ou Sapienciais)

— 6 É assim a geração dos que procuram o Senhor!
— 1 Ao Senhor pertence a terra e o que ela encerra, o mundo inteiro com os seres que o povoam; 2 porque ele a tornou firme sobre os mares, e sobre as águas a mantém inabalável.
— 3 “Quem subirá até o monte do Senhor, quem ficará em sua santa habitação?” 4a “Quem tem mãos puras e inocente coração, 4b quem não dirige sua mente para o crime.
— 5 Sobre este desce a bênção do Senhor e a recompensa de seu Deus e Salvador”. 6 “É assim a geração dos que o procuram, e do Deus de Israel buscam a face”.

Leitura da primeira carta de são João 3,1-3 (Livro do novo ou 2º testamento / Livros Didáticos)

Caríssimos: 1 Vede que grande presente de amor o Pai nos deu: de sermos chamados filhos de Deus! E nós o somos! Se o mundo não nos conhece, é porque não conheceu o Pai. 2 Caríssimos, desde já somos filhos de Deus, mas nem sequer se manifestou o que seremos! Sabemos que, quando Jesus se manifestar, seremos semelhantes a ele, porque o veremos tal como ele é. 3 Todo o que espera nele purifica-se a si mesmo, como também ele é puro.

Proclamação do evangelho de Jesus Cristo segundo Mateus 5,1-12a (Livro do novo ou 2º Testamento / Livros Históricos)

Naquele tempo, 1 vendo Jesus as multidões, subiu ao monte e sentou-se. Os discípulos aproximaram-se, 2 e Jesus começou a ensiná-los:
3 “Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos Céus.
4 Bem-aventurados os aflitos, porque serão consolados.
5 Bem-aventurados os mansos, porque possuirão a terra.
6 Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados.
7 Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia.
8 Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus.
9 Bem-aventurados os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus.
10 Bem-aventurados os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos Céus!
11 Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem e perseguirem, e, mentindo, disserem todo tipo de mal contra vós, por causa de mim.
12a Alegrai-vos e exultai, porque será grande a vossa recompensa nos céus”.

… Eu sou o CAMINHO … (ler)

O que o texto diz para mim, hoje? Releio o texto. Reflito e me examino para ver se me enquadro entre estes felizes de que fala Jesus. Posso me questionar: sou espiritualmente pobre? Humilde? Procuro fazer a vontade de Deus? Tenho o coração puro? Trabalho pela paz? Os bispos, em Aparecida, nos ajudaram a refletir sobre isto: “No seguimento de Jesus Cristo, aprendemos e praticamos as bem-aventuranças do Reino, o estilo de vida do próprio Jesus: seu amor e obediência filial ao Pai, sua compaixão entranhável frente à dor humana, sua proximidade aos pobres e aos pequenos, sua fidelidade à missão encomendada, seu amor serviçal até a doação de sua vida. Hoje, contemplamos a Jesus Cristo tal como os Evangelhos nos transmitiram para conhecer o que Ele fez e para discernir o que nós devemos fazer nas atuais circunstâncias.” (DAp 139).

… a VERDADE … (meditar)

O que diz o texto do dia? Leio atentamente, na Bíblia, o texto: Mt 5,1-12a, e observo o estilo de Jesus Mestre. O “Sermão da Montanha” é como a Constituição do povo de Deus, o manifesto do Mestre Jesus Cristo. Jesus viu as multidões e sentado – atitude de que ensina – falou a elas. Este discurso é exigente, um convite a uma constante superação de si mesmo, uma denúncia às mesquinhezas e infidelidades e, ainda, oferece a misericórdia de Deus. Através daquela comunidade, Jesus Mestre se dirige a todas as comunidades de todos os tempos. Viver as bem-aventuranças é ser fermento de uma nova sociedade.

… e a VIDA … (orar)

O que o texto me leva a dizer a Deus? Rezo a Oração do Amor: Senhor, fazei-me instrumento da vossa paz. Onde há ódio que eu leve o amor. Onde há ofensa que eu leve o perdão. Onde há discórdia que eu leve a união. Onde há erro que eu leve a verdade. Onde há dúvida que eu leve a fé. Onde há desespero que eu leve a esperança. Onde há trevas que eu leve a luz. Onde há tristeza que eu leve a alegria. Ó Mestre, fazei que eu procure mais consolar que ser consolado, compreender que ser compreendido, amar que ser amado, pois é dando que se recebe, é perdoando que se é perdoado, e é morrendo que se vive para a vida eterna. E completo minha oração: Pai, move-me pelo Espírito a trilhar o caminho da santidade, colocando minha vida em tuas mãos e buscando viver as bem-aventuranças proclamadas por teu Filho Jesus.

Qual deve ser a MISSÃO em minha VIDA hoje? (agir)

Vou olhar o mundo buscando a felicidade. Vou cultivar no meu modo de pensar e agir só o que vem de Deus, e é conforme o Projeto de Jesus Mestre e a sua Constituição, as bem-aventuranças.

REFLEXÕES:

1 – BEM-AVENTURANÇAS

Mateus, no seu evangelho, apresenta, didaticamente, cinco coletâneas de textos extraídos das tradições das primitivas comunidades cristãs, formando cinco discursos de Jesus. O “Sermão da Montanha” é o primeiro destes discursos, em vista do anúncio do Reino dos Céus. Este Sermão inicia-se com as nove bem-aventuranças. A subida à montanha é uma alusão ao lugar do encontro com Deus e a Moisés que recebeu os mandamentos da Lei na montanha (Sinai). Moisés, agora, cede lugar a Jesus, que apresenta as bem-aventuranças do Reino dos Céus. Os mandamentos da Lei eram expressos em forma categórico-imperativa. Contudo, as bem-aventuranças proclamadas por Jesus são uma oferta amorosa de felicidade a ser encontrada na união de vontade com Deus, através de práticas acessíveis a todos. As bem-aventuranças não indicam um estado de felicidade de alguém que se aplica em crescer nas virtudes pessoais, mas sim a felicidade da comunhão com os irmãos, particularmente os mais excluídos, em um processo de libertação e integração social, e, nesta comunhão com os irmãos, a felicidade da própria comunhão com Deus. A primeira bem-aventurança (bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos Céus) apresenta a pobreza, na forma de desapego concreto dos bens terrenos, como a característica genérica do Reino. As duas bem-aventuranças seguintes (bem-aventurados os aflitos, porque serão consolados / bem-aventurados os mansos, porque possuirão a terra) apontam para as vítimas da sociedade injusta: os que choram e os submissos (“mansos”) aos quais o amor de Deus traz a libertação. Seguem-se quatro bem-aventuranças ativas (bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados / bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia / bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus / bem-aventurados os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus), em vista da transformação da sociedade: a fome e sede da justiça que é a vontade de Deus, a misericórdia que impulsiona à ação solidária, a pureza do coração que supera a pureza ritual e acolhe a todos, e os promotores da paz em vista da construção de um mundo sem a ambição e a violência daqueles que tiram o alimento dos pobres para transformá-lo em armas de destruição maciça. As duas últimas bem-aventuranças (bem-aventurados os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos Céus / bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem e perseguirem, e, mentindo, disserem todo tipo de mal contra vós, por causa de mim. Alegrai-vos e exultai, porque será grande a vossa recompensa nos céus) retomam o tema da justiça, advertindo sobre a repressão a que estarão sujeitos os que a buscam e exaltando sua grandeza. Pela prática das bem-aventuranças, na plenitude do amor, somos, de fato, filhos de Deus (segunda-leitura). Nelas encontramos valores universais, que podem ser entendidos e acolhidos entre todos os povos, chamados a formar “uma multidão imensa, que ninguém podia contar, gente de todas as nações, tribos e línguas” (primeira leitura). As bem-aventuranças são o caminho concreto para a transformação deste mundo em um mundo de fraternidade, justiça e paz.

2 – BEM-AVENTURANÇA E SANTIDADE

Ao proclamar as bem-aventuranças, Jesus descreveu a dinâmica da santidade. Bem-aventurado é sinônimo de santo. Portanto, santos são os pobres em espírito, cujo coração está centrado em Deus e que rejeita toda espécie de idolatria. Com certeza, possuirão o Reino dos Céus. Santos são os mansos, que por não responderem a violência com violência, herdarão um bem inalcançável pelos violentos. Santos são os aflitos, que são impotentes diante de situações dramáticas, e não pretendem ter solução para tudo. Sua recompensa será a consolação de Deus. Santos são os famintos e sedentos de justiça, que não pactuam com a maldade, nem se deixam levar pela lógica da dominação. Deus mesmo haverá de realizar seu ideal e fazê-los contemplar o reino da justiça. Santos são os misericordiosos, cujo destino consistirá em viver a comunhão definitiva com o Deus-misericórdia. Santos são os puros de coração, que não agem com segundas intenções e nem falsidade, mas sim, com transparência. Por isso, serão recompensados com a visão de Deus, em todo seu esplendor. Santos são os promotores da paz, que procuram criar laços de amizade e banir toda espécie de ódio, a fim de que o mundo seja mais fraterno. Eles serão chamados filhas e filhos de Deus. Santos são os perseguidos por causa da justiça, os que lutam para fazer valer o projeto de Deus para a humanidade. Este é o caminho da santidade que todos somos chamados a percorrer.

3 – O SERMÃO DA MONTANHA, UM AUTÊNTICO PROGRAMA DE VIDA CRISTÃ

O chamado “Sermão da Montanha” faz parte do discurso inaugural do ministério público de Jesus que se estende entre os capítulos 5 a 7 do Evangelho de São Mateus. Hoje, vamos observar o primeiro dos cinco discursos que o evangelista distribui estrategicamente no seu livro. No texto destacamos dois elementos fundamentais: primeiro está o lugar de onde Jesus fala e o conteúdo do discurso. Depois de pregar nas sinagogas da Galileia – acompanhado de uma grande multidão -, Jesus sobe ao monte para rezar, escolhe os doze apóstolos e depois chega a um lugar plano. Ali, Ele se senta. Os Seus discípulos e toda a multidão se aproximam d’Ele. Então, tomando a palavra, Jesus começa a ensinar: “Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos céus…” A intenção evidente do evangelista é apresentar-nos um discurso completo. Há portanto, aqui, uma unidade retórica, sendo este termo entendido não só como uso de figuras de estilo mas, sobretudo, como forma de usar as palavras e construir o discurso visando cumprir um determinado objetivo que, neste caso, é proclamar o Evangelho do Reino de um modo novo. Não há aqui espaço para uma interpretação detalhada do texto. Utilizaremos como marco hermenêutico a novidade que este sermão nos traz, advertindo desde já que, de maneira nenhuma, trata-se de ruptura com o Antigo Testamento, mas sim do seu pleno cumprimento em Jesus Cristo. De fato, Ele declara: “Não penseis que vim revogar a Lei ou os profetas. Não vim revogá-los, mas levá-los à perfeição”. Levar à perfeição é o mesmo que “dar pleno cumprimento”, realizar plenamente. À semelhança de Moisés, que sobe ao Monte Sinai para receber as tábuas da Lei que há de comunicar ao povo de Israel (cf. Ex 19,3.20; 24,15), há quem veja na pessoa de Jesus um “novo Moisés” que surge como Mestre, não apenas de Israel, mas de todos os homens chamados à vocação universal de serem discípulos de Cristo pela escuta e vivência da Sua Palavra: “Nem todo o que me diz: ‘Senhor, Senhor’ entrará no Reino do Céu, mas sim aquele que faz a vontade de meu Pai que está no Céu” (Mt 7,24). Ou ainda: “Todo aquele que escuta estas minhas palavras e as põe em prática é como o homem prudente que edificou a sua casa sobre a rocha”. Jesus senta-se na “cátedra” de Moisés (a montanha) como o Moisés maior, que estende a aliança a todos os povos. Assim, podemos ver o Sermão da Montanha como “a nova Torá trazida por Jesus”. Devemos insistir, porém, que não se trata aqui de abandonar a Torá dada na aliança do Sinai. É sabido que o primeiro Evangelho foi escrito para uma comunidade de cristãos de origem judaica, enraizados e familiarizados com a Lei de Moisés, que continuava a ser valorizada e praticada. A preocupação do evangelista é mostrar que, sem abolir nada do que Moisés tinha deixado, Cristo – com a Sua ação – o supera e leva à perfeição como só Ele pode fazer, absolutamente melhor do que qualquer outro profeta. O que Mateus nos apresenta, no texto de hoje, não tenho nem sequer uma sombra de dúvida de que seja o anúncio de um novo céu e uma nova terra onde haveremos de morar. É como que a realização de todas as promessas e bênçãos de Deus nos discípulos da Nova Aliança em Cristo, assim como no novo espírito com que se deve cumprir a Lei, concretizado nas práticas da esmola, da oração e do jejum. A atitude dos filhos do Reino se traduz numa nova relação com as riquezas, com o próprio corpo e as coisas do mundo e com Deus, a quem nos dirigimos como Pai e de cujo Reino se busca a justiça antes de tudo. Como não se pode dizer que se ama a Deus se não se ama os irmãos, não falta aqui a referência a uma nova relação com o próximo. Finalmente, o epílogo do Sermão faz uma recapitulação e um apelo veemente a não apenas escutar a Palavra, mas a pô-la em prática de forma consciente e deliberada. Procuramos, da forma mais breve possível, ver como em Jesus Cristo se cumpre a promessa de Deus ao povo de Israel em Dt 18,15: “O Senhor, teu Deus, suscitará no meio de vós, dentre os teus irmãos, um profeta como eu; a ele deves escutar” e a Moisés em Dt 18,18: “Suscitar-lhes-ei um profeta como tu, dentre os seus irmãos; porei as minhas palavras na sua boca e ele lhes dirá tudo o que Eu lhe ordenar”. Como acontece noutras passagens dos Evangelhos, também aqui Jesus Cristo anuncia o Reino dos Céus. Esta é uma forma semítica de dizer “Reino de Deus”, que está no meio de nós e se realiza plenamente no domínio ou reinado de Deus sobre todas as Suas criaturas e na aceitação ativa, alegre e jubilosa desse reinado pelas mesmas criaturas, a começar pelo homem, criado à Sua imagem e semelhança. O Sermão da Montanha é então, para nós, um autêntico programa de vida cristã que não deixaremos de meditar e pôr em prática todos os dias, pois ele compreende o “anúncio de um novo céu e uma nova terra onde haveremos de morar.

4 – AMARÁS O SENHOR, TEU DEUS, COM TODO O TEU CORAÇÃO

Li que Deus é amor (1Jo 4,16) e não que Ele é honra ou dignidade. Não é que Deus não queira ser honrado, visto que disse: «Se Eu sou Pai, onde está a honra que me é devida?» (Ml 1,6). Fala aqui como Pai. Mas, se Se mostrasse como esposo, penso que mudaria o Seu discurso para: «Se Eu sou Esposo, onde está o amor que Me é devido?» Pois já anteriormente tinha dito: «Se Eu sou Senhor, onde está o respeito por Mim?» (ib.) Ele pede pois para ser respeitado como Senhor, honrado como Pai, amado como Esposo. Desses três sentimentos, qual é o mais valioso? O amor, sem dúvida. Pois sem amor o respeito é árduo e a honra fica sem retribuição. O temor é servil enquanto o amor não o vem validar, e uma honra que não é inspirada no amor não é uma honra, é adulação. Claro que só a Deus são devidas a honra e a glória, mas Deus só as aceita temperadas com o mel do amor. O amor é autossuficiente, agrada por si mesmo, é o seu próprio mérito e a sua recompensa. O amor não quer outra causa, outro fruto, senão ele próprio. O seu verdadeiro fruto é ser. Amo porque amo. Amo para amar. […] De todos os movimentos da alma, de todos os seus sentimentos e afetos, o amor é o único que permite à criatura responder ao seu Criador, senão de igual para igual, pelo menos de semelhante para semelhante (cf Gn 1,26).

5 – QUAL É O PRIMEIRO DE TODOS OS MANDAMENTOS?

Hoje, está na moda falar de amor aos irmãos, de justiça crista, etc. Mas apenas se fala do amor a Deus. Por isso devemos lembrar-nos da resposta que Jesus dá ao escriba, quem sem maldade lhe pergunta: «Qual é o primeiro de todos os mandamentos?» (Mc 12,29), o que não era de estranhar, por entre tantas leis e normas, os judeus, procuravam estabelecer um princípio que unificara todas as formulações da vontade de Deus. Jesus responde com uma simples oração que ainda hoje, os judeus repetem várias vezes ao dia e, levam escrita em cima: «Escuta, Israel: «O primeiro é este: ‘Ouve, Israel! O Senhor nosso Deus é um só. Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, com toda a tua alma, com todo o teu entendimento e com toda a tua força!’» (Mc 12,29-30). Quer dizer, Jesus, lembra-nos que em primeiro lugar, devemos proclamar a primazia do amor a Deus como tarefa fundamental do homem e, isso é lógico e justo, porque Deus nos amou em primeiro lugar. Porém, não fica contento apenas com nos lembrar desse mandamento primordial e básico, senão que acrescenta que também devemos amar a nosso próximo como a nós mesmos. E é que, como diz o Papa Bento XVI, «Amar a Deus e amar o próximo são inseparáveis, são um único mandamento. Mas ambos vivem do amor que vem de Deus, que nos amou primeiro». Um aspecto que não se fala, é que Jesus nos manda que amemos o próximo como a nós mesmos, nem mais nem menos; do que deduzimos que manda que nos amemos a nós mesmos finalmente, somos obra das mãos de Deus e criaturas suas, amadas por Ele. Se tivermos, como regra de vida o duplo mandamento do amor a Deus e aos irmãos, Jesus nos dirá: «Tu não estás longe do Reino de Deus»» (Mc 12,34). E, se vivemos esse ideal, faremos da terra um ensaio geral do céu.

6 – BEM-AVENTURADOS OS POBRES EM ESPÍRITO

Santos são todos aqueles que estão preparados para serem finados. No dia de finados, refletimos sobre a nossa morte, realidade fatal e inevitável. A liturgia deste domingo é muito rica. Ela nos apresenta uma reflexão sobre a santidade. Desta forma, somos convidados a dar uma olhada na nossa espiritualidade, na nossa vida prática com relação a Deus e ao irmão. Vamos refletir sobre Todos os Santos. Dom Henrique Soares escreveu muito bem a respeito da santidade. Diz ele literalmente: “A nossa fé nos ensina que somente Deus é Santo. Na Bíblia, “santo” significa, literalmente, “separado”. Deus é aquele que é separado, absolutamente diferente de tudo quanto exista no céu e na terra: Ele é único, Ele é absoluto, Ele sozinho se basta, sozinho é pleno, sozinho é infinitamente feliz. Ele é Deus! Por isso, Santo, em sentido absoluto, é somente o Deus uno e trino, Pai, Filho e Espírito Santo. A Jesus, o Filho eterno feito homem, nós proclamamos em cada missa: “Só vós sois o Santo”; ao Pai nós dizemos: “Na verdade, ó Pai, vós sois Santo e fonte de toda santidade”; ao Espírito nós chamamos de Santo. Mas, a nossa fé também nos ensina que este Deus santo e pleno, dobra-se carinhosamente sobre a humanidade – sobre cada um de nós – para nos dar a sua própria vida, para nos fazer participantes de sua própria plenitude, sua própria santidade.” Viu? Deus nos permite participar da sua santidade. Assim, na verdade, só Ele é santo, mais nós podemos também pegar uma “caroninha” na santidade. Através do Batismo nós fomos iniciados na santificação, pois fomos “lavados, santificados, justificados em nome do Senhor Jesus Cristo e pelo Espírito de nosso Deus”. Durante toda nossa vida, diariamente, Deus através de Jesus, nos chama a santificação. É o desejo de Deus que nós sejamos santos “Sede santos porque eu sou Santo”. De nossa parte, a santificação é uma luta diária. Devemos pedir a Deus a sua poderosa ajuda para a nossa, santificação, pois depois da iniciação pelo Batismo, precisamos perseverar na santidade que começamos. A nossa santidade deve ser conquistada diariamente, minuto a minuto, pois a cada dia, a cada hora, cometemos pecados. Portanto, precisamos purificar-nos de nossos pecados por uma santificação constante e sem cessar, através da caridade… Recorremos, portanto, a oração, a leitura meditada, a reconciliação com Deus, a Eucaristia, para que esta santidade cresça e permaneça em nós. Caríssimos. Tudo o que precisamos para a nossa santificação diária, esta na Igreja. Porém, se por acaso onde você mora a presença de Deus não é marcada pela presença da Igreja, não desanime. Ame o senhor teu Deus de todo o teu coração, com todas as tuas forças, e segundo o teu entendimento. E ao próximo como a ti mesmo. Quando cremos e amamos a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmo, somos mergulhados no mistério íntimo de sua Divindade e no evento da salvação de nossa humanidade. No Pai Nosso Jesus nos ensinou para que pedíssemos ao Pai que santificado seja o seu nome, o nome de Deus. Mais quem poderia santificar a Deus, já que é Ele mesmo quem santifica? O verdadeiro sentido desta frase é que roguemos ao Pai pela conversão da humanidade toda, e assim todos reconheçam a Trindade Santa como um só Deus Uno e Trino. O que pedimos é para que os homens e mulheres, todos O adorem, e divulguem os seus infinitos poderes e sua imensa bondade para os demais viventes da Terra. Como sabemos, só Deus é Santo, só Ele o altíssimo, Jesus Cristo com o Espírito Santo na glória de Deus Pai, é a trindade Santíssima. Porém, já que Deus em sua bondade infinita nos deu a honra de participarmos de sua santidade, tornamo-nos santos, quando cremos, e meditamos sobre sua verdade trazida por seu Filho amado, quando praticamos a justiça e a caridade com toda esperança de um dia merecermos a glória eterna. Entendamos então que ninguém é santo além da Trindade. A bem da verdade, aqueles que são denominados de santos são os menos indignos da presença de Deus, da Eucaristia, e da salvação eterna. Santo é aquele que é separado. Separado não no sentido de isolado, excluído, tirado de lado, mais sim no sentido de escolhido. Exemplo: Escolher e separar as frutas que estão maduras, as melhores, as prontas para serem saboreadas… Concluindo: Em outras palavras, santo é todo aquele que: é pobre em espírito, aquele que é despojado das riquezas, que não é apegado aos bens materiais, e das ilusões desta vida terrena, é aquele que vive segundo o espírito e não segundo a carne, e que busca a Deus em primeiro lugar. Santos são aqueles que estão aflitos, por causa da injustiça dos poderosos ou dos demais irmãos. Santos são os mansos, não os bobos, covardes, mais sim aqueles que sofrem com resignação e confiança na providência divina, e que promovem a paz na Terra. Santos são todos aqueles que têm fome e sede de justiça, porque não podem pagar um advogado que os defenda das acusações e desmandos, por exemplo: dos baixos salários por muitas horas de trabalho duro, etc.; Santo é todo aquele que é misericordioso para com o seu irmão pobre, a esses Jesus garantiu que também alcançarão a misericórdia do Pai. Desse modo, entendemos, que pela misericórdia, nossos pecados veniais, serão perdoados. Santos são os puros de coração, aqueles que não têm malícia, que não pensa nem fala mal dos demais, que não julgam o seu irmão, etc.; Santos são todos os mártires principalmente os da Igreja, aqueles que foram e que estão sendo perseguidos por causa do nome de Jesus. Santos serão todos aqueles que forem injuriados, discriminados, excluídos, ignorados, seja na comunidade cristã, seja na macro sociedade, principalmente por seguirem a Cristo e anunciar seu Evangelho. Atenção todos os santos que se enquadram nestes requisitos, alegrai-vos e exultai, porque será grande a vossa recompensa nos céus.

7 – AS BEM AVENTURANÇAS SÃO CAMINHOS DE SANTIDADE!

Na festa de todos os Santos, somos convidados a voltar o nosso olhar para o alto e contemplar uma multidão de Santos e Santas que deixaram marcas profundas do seu amor a Deus, aqui na terra e que agora participam da glória do céu! Jesus nos convida a ser Santo, nos propondo algo de concreto: dar um sentido novo a nossa existência, uma única e fundamental direção, idêntica para todos: a santidade como meta para chegarmos à vida eterna. Para isso, precisamos sair do círculo vicioso do egoísmo, sair do nosso eu, onde projetamos a nossa vida tendo como ponto de referência nós mesmo, para nos envolver no projeto de Deus, que tem como referência unicamente Jesus! Fomos criados e orientados por Deus, a direcionar a nossa existência como uma flecha que busca o seu alvo e o nosso alvo é o próprio Deus, Ele é o nosso único objetivo, Aquele que dá o verdadeiro sentido a nossa vida. É sonho de Deus que todos nós sejamos felizes e ser feliz é também o que mais almejamos na vida, pena que buscamos a felicidade fora de nós, com isso, enveredamos por caminhos incertos que não nos levam a lugar algum. Falta-nos compreender que a felicidade não é algo comprável, não está nas coisas matérias e não significa ausência de dificuldade. Quando compreendermos que a felicidade é uma eterna construção, que a vida não nos pertence e que não somos donos de nada, aí sim, estaremos prontos para assumir o grande desafio: ser feliz até mesmo no sofrimento! Ao esvaziarmos de nós mesmos, tornamos pobres, totalmente dependentes de Deus e tudo que mais queremos é fazer a sua vontade, as dificuldades, as perseguições, ao invés de nos aborrecer, nos alegram, pois sabemos que toda situação que nos leva ao sofrimento, Deus transforma num bem para nós. Ninguém busca o sofrimento, mas ele é inevitável em nossas vidas, saber aproveitá-lo como trampolim para a nossa ascensão, é estar no caminho da Santidade! No evangelho de hoje Jesus faz uma consolação a todos aqueles que hoje estão totalmente desprovidos das benesses do mundo! As bem-aventuranças, não são mandamentos, podemos dizer que são caminhos de santidade, um abandonar-se em Deus, um não estar preso as coisas do mundo! O conceito de felicidade que o mundo prega, é completamente diferente da felicidade que Deus planejou para todos nós! Jesus nos deixa claro que para sermos felizes, precisamos experimentar a dependência de Deus. E assim, Ele proclama: “Bem aventurados os pobres em espírito, os aflitos, os mansos, os que têm fome e sede de justiça os misericordiosos, os puros de coração os perseguidos e injuriados por causa do reino”! Estes sim, são felizes por serem totalmente dependentes de Deus! Passar fome, chorar, ser perseguido, odiado, amaldiçoado são situações que não agradam a Deus e que aos olhos do mundo, são vistas como infelicidade. Porém, para quem vive essas realidades, mas permanece firme na perspectiva de fazer a vontade de Deus, toda situação de sofrimento se reverte em bem. Alegremo-nos por confiar na realização das promessas de Deus! É o próprio Jesus que nos garante: “Alegrai-vos e exultai, pois será grande a vossa recompensa no Céu”. Assim como foram os Santos, sejamos também fiéis ao Evangelho, sem medo de ser de Deus, de dar testemunho de Jesus em qualquer circunstância! Ser Santo, é o grande desafio de buscar a perfeição em meio às imperfeições do mundo sem nunca esquecer: o mais Santo de todos os Santos da terra, será sempre um pecador perdoado.

8 – FIQUE NA PAZ DE JESUS

Hoje, a Igreja volta seu olhar e seu coração para o céu e enche-se de alegria ao contemplar uma multidão que participa da glória e da plenitude do Deus Santo. A nossa fé nos ensina que somente Deus é Santo. Na Bíblia, “santo” significa, literalmente, “separado”. Deus é aquele que é separado, absolutamente diferente de tudo quanto exista no céu e na terra: Ele é único, Ele é absoluto, Ele sozinho se basta, sozinho é pleno, sozinho é infinitamente feliz. Ele é Deus! Por isso, Santo, em sentido absoluto, é somente o Deus uno e trino, Pai, Filho e Espírito Santo. A Jesus, o Filho eterno feito homem, nós proclamamos em cada missa: “Só vós sois o Santo”; ao Pai nós dizemos: “Na verdade, ó Pai, vós sois Santo e fonte de toda santidade”; ao Espírito nós chamamos de Santo. Mas, a nossa fé também nos ensina que este Deus santo e pleno, dobra-se carinhosamente sobre a humanidade – sobre cada um de nós – para nos dar a sua própria vida, para nos fazer participantes de sua própria plenitude, sua própria santidade. Foi assim que o Pai, cheio de imenso amor, enviou-nos seu Filho único até nós, e este, morto e ressuscitado, infundiu no mais íntimo de nós e de toda a Igreja o seu Espírito de santidade. Eis, quanta misericórdia: Deus, o único Santo, nos santifica pelo Filho no Espírito: “Vede que grande presente de amor o Pai nos deu: sermos chamados filhos de Deus! E nós o somos!” É isto a santidade para nós: participar da vida do próprio Deus, sermos separados, consagrados por ele e para ele desde o nosso Batismo, para vivermos sua própria vida, vida de filhos no Filho Jesus! É assim que todo cristão é um santificado, um separado para Deus. Mas, esta santidade que já possuímos deve, contudo, aparecer no nosso modo de viver, nas nossas ações e atitudes. E o modelo de toda santidade é Jesus, o Bem-aventurado. Ele, o Filho, foi totalmente aberto para o Pai no Espírito Santo e, por isso, foi totalmente pobre, totalmente manso, totalmente puro e abandonado a Deus no pranto, na fome de justiça e na misericórdia. Então, ser santo, é ser como Jesus, deixando-se guiar e transformar pelo seu Espírito em direção ao Pai. Esta santidade é um processo que dura a vida toda e somente será pleno na glória. São João nos fala disso na segunda leitura de hoje: “Quando Cristo se manifestar, seremos semelhantes a ele, porque o veremos tal como ele é”. Nesta perspectiva, podemos contemplar a estupenda leitura do Apocalipse que escutamos como primeira leitura. O que se vê aí? Uma multidão. Primeiro, cento e quarenta e quatro mil de todas as tribos de Israel. Isto simboliza todo o Israel. Recordemos: 12 é o número do Povo do Antigo Testamento. Pois bem, cento e quarenta e quatro mil equivale a 12 x 12 x 1000, isto é, à totalidade de Israel. Deus não se cansou de chamar o povo da antiga aliança: Israel haverá de ser salvo pelo sangue de Cristo. Mas, há ainda mais: “Depois disso, vi uma multidão imensa de gente de todas as nações, tribos, povos e línguas, e que ninguém podia contar. Estavam de pé diante do trono e do Cordeiro”. Essa multidão são todos os povos da terra, chamados por Cristo, na Igreja, para a salvação, para a santificação que Deus nos oferece. Notemos bem: “uma multidão que ninguém podia contar”. A salvação é para todos, a santidade não é para um grupinho de eleitos, para uma elite espiritual. Todos são chamados a essa vida divina que Deus quer partilhar conosco, todos são chamados à santidade! “Trajavam vestes brancas e traziam palmas nas mãos. São os que vieram da grande tribulação e lavaram e alvejaram suas vestes no sangue do Cordeiro”. Eis quem são os santos: aqueles que atravessaram as lutas desta vida, as tribulações desta nossa pobre existência, unidos a Cristo; são os que venceram em Cristo – por isso trazem a palma da vitória; são os que não tiveram medo de viver e, se caíram, se erraram, foram, humildemente, lavando e alvejando suas vestes no sangue precioso de Cristo: são santos não com sua própria santidade, mas com a santidade do Cristo-Deus. Nunca esqueçamos: ninguém é santo com suas forças, ninguém é santo por sua própria santidade: só em Cristo somos santificados, pois somente Cristo derrama sobre nós o Espírito de santidade. O nosso único trabalho é lutar para acolher esse Espírito, deixando-nos guiar por ele e por ele sermos transfigurados em Cristo! Olhemos para o céu: lá estão Pedro e Paulo, lá estão os Doze, lá estão os mártires de Cristo, os santos pastores e doutores, lá estão as santas virgens e os santos homens, lá estão tantos e tantos – uns, conhecidos e reconhecidos pela Igreja publicamente, outros, cujo nome somente Deus conhece; lá está a Santíssima e Bem-aventurada sempre Virgem Maria, Mãe e discípula perfeita do Cristo, toda plena do Espírito, toda obediente ao Pai. Eles chegaram lá, eles intercedem por nós, eles são nossos modelos, eles nos esperam. Num mundo que vive estressado, que corre sem saber para onde… num mundo que já não crê nos verdadeiros valores, porque já não crê em Deus, contemplar hoje todos os santos é recordar para onde vamos e qual é o sentido da nossa vida! Não tenhamos medo de ser de Deus, não tenhamos medo de testemunhar o Evangelho, não tenhamos medo de alimentar nossa visa com o Cristo, na sua Palavra e na sua Eucaristia para sermos inebriados da vida do próprio Deus. Infelizmente, muitos hoje têm como heróis os atletas, os atores, os cantores e tantos outros que não têm muito e até nada para ensinar. Quanto a nós, que nossos heróis e modelos sejam os santos e santas de Cristo, que foram heróis porque se venceram e correram para o Cristo! Que eles roguem por nós, pois o que eles foram, nós somos e o que eles são, todos nós somos chamados a ser. Todos os Santos e Santas de Deus, rogai por nós!

9 – A NOSSA FELICIDADE AQUI NA TERRA ESTÁ CONDICIONADA À NOSSA EXPERIÊNCIA PESSOAL COM O AMOR DE DEUS

Neste Evangelho Jesus nos dá a receita para que sejamos Bem aventurados, isto é, cheios de ventura e de felicidade. Podemos então apreender que a nossa ventura e felicidade não dependem de nada que seja material nem tampouco de uma vida fácil e sem problemas. O conceito de felicidade que o mundo prega é completamente diferente da felicidade que Deus planejou para a nossa vida. Pelo contrário, Jesus nos esclarece que para sermos bem aventurados nós precisamos experimentar a carência e a dependência da graça que nos vem do alto. E assim, Ele proclama felizes, os pobres em espírito, os aflitos, os mansos, os que têm fome e sede de justiça (santidade), os misericordiosos, os puros de coração os perseguidos e injuriados por causa do reino. Jesus também coloca para cada bem aventurança uma consequência que é como um benefício para que alcancemos o estágio de bem aventurado. Para avaliarmos se somos tudo isto a que se refere o Evangelho, nós precisamos verificar se estamos vivendo o reino dos céus, se nos sentimos consolados, se temos bons relacionamentos, se buscamos a santidade, se estamos provando a misericórdia, se temos comunhão com Deus e nos consideramos Seus filhos. Se estamos sendo perseguidos, mas mesmo assim vivemos alegres apesar das humilhações e dificuldades do reino. Bem aventurados seremos todos nós, se levarmos como bandeira a nossa Fé em Jesus Cristo e no que Ele nos ensina em Sua Palavra. Ser pobre, aflito, manso, faminto, misericordioso, puro de coração, promotor da paz, perseguido, insultado, na concepção humana é, na realidade, uma infelicidade. Porém, se nos aprofundarmos na sabedoria de Deus, o Espírito nos convencerá de que tudo isso é inerente à nossa condição humana, porém quando nos reconhecemos completamente dependentes da misericórdia do nosso Pai, então, todas essas dificuldades transformam-se em ocasiões para que experimentemos o Seu Amor infinito, e aí então, seremos realmente felizes. A nossa felicidade aqui na terra está condicionada à nossa experiência pessoal com o Amor de Deus. Nesse caso, todas as ocasiões em que somos mais provados são justamente os momentos em que mais nós temos a amostra da ação de Deus na nossa vida. Reflita – Você já experimentou alguma vez a felicidade dessa maneira? – Para você o que significa ser feliz? – Você já foi perseguido por causa do reino de Deus? – Você é bem aventurado? – O que falta para você viver das bem-aventuranças? – Você confia que Deus o alimentará e sempre matará a sua sede de justiça? Amém! Abraço carinhoso.

10 – SOLENIDADE DE TODOS OS SANTOS

Hoje comemoramos Todos os Santos, em particular aqueles que não estão no altar. Lembramos hoje dos cristãos que viveram o evangelho, que fizeram da Palavra de Deus o seu estilo de vida, que souberam seguir Jesus com fidelidade, e que agora se encontram na presença de Deus na Glória Celeste. Nossas homenagens aos bem-aventurados que souberam viver o amor. O sermão da montanha ou das bem-aventuranças, como é conhecido, é um dos mais expressivos ensinamentos de Jesus. As bem-aventuranças são o resumo de todas as expressões de amor fraterno. De maneira clara enaltecem o pobre, o que sofre, o que luta por justiça, o injuriado, o perseguido… Jesus diz que: quanto mais misericordiosa, mansa, humilde e pura de coração for a pessoa, maior é a chance de receber a grande recompensa no céu. Chama de Bem-aventurados os que promovem a paz num mundo tão conturbado e individualista. Falecidos ou não, hoje lembramos de todos os santos. Homens e mulheres, dotados de total desprendimento e doação. Filhos de Deus que souberam ver em cada próximo um irmão. No anonimato, confiantes, abraçaram o ideal do evangelho e amaram intensamente, sem divisões nem restrições. Deus nos ama profundamente e quer que nos amemos uns aos outros com amor tolerante, sincero e fraternal. É esse amor que Jesus ressalta em cada uma das bem-aventuranças. Elas afirmam que, quem vive o amor já é santo. Fomos feitos para a santidade, portanto, só há uma alternativa; ser santo ou nada! A santidade nos espera. A santificação deve ser o nosso ideal. Ser santo é ser pobre em espírito, é confiar plenamente em Deus. É apoiar-se na graça de Deus e compartilhar do sofrimento dos irmãos. É chorar com os que choram, é partilhar os bens e aliviar a dor dos menos favorecidos. O santo procura ser manso e caridoso com as pessoas, mesmo quando estas não são amáveis. O santo segue Jesus com fidelidade, pratica a justiça e a fraternidade; é misericordioso, sabe dividir e não é mal intencionado. O santo é um apaziguador, reflete harmonia e, acima de tudo, é um construtor da paz. É preciso no entanto, persistência e muita coragem, pois o santo é também um sério candidato ao martírio. Quem vive as bem-aventuranças é presa fácil da injúria. Assim como Jesus, o santo será perseguido e até mesmo morto pelos inimigos da verdade, da justiça e da paz. Poderá ainda, ser humilhado e martirizado por aqueles que fazem da morte o seu meio de vida. É poderosa a minoria que sobrevive da opressão, do desemprego, da inflação, também do tráfico de drogas e do aliciamento de menores… são perigosos os abutres que encontram na podridão a sua subsistência. O santo, porém, é muito mais forte, não vira o rosto para as verdades. Tudo vê e jamais fecha os seus olhos. O construtor da paz incomoda com sua presença e grita bem alto as falcatruas. O bem-aventurado clama por um mundo de amor, onde haja vida e liberdade. Ser santo, essa é a única alternativa para quem quer ganhar sua recompensa no céu.

11 – BEM AVENTURADOS

Bom dia! Bem aventurados… Sim! Somos agraciados, pois cremos em Deus e depositamos Nele a nossa confiança de um dia, uma semana, um mês, (…) ainda melhor. Vendo dessa forma, começamos a semana em que refletiremos o amor de Deus por sua criatura através do Coração humano e divino de Jesus. A passagem das bem-aventuranças nos faz pensar que na verdade em nossas fraquezas habita nossa fortaleza. Quando digo fraqueza não estou me referindo a pecados ou falhas. Refiro-me aos nossos medos, sentimentos não preenchidos, angústias… Pensar que Deus habita onde não imaginamos que Ele estaria nos gera um grande conforto. É difícil de imaginar Deus no mendigo que pede uma esmola na rua? Será que vejo a imagem de Deus naquele que paga por uma pena na prisão? Consigo ver Seus santos traços na criança que faz malabares no semáforo? Sim! É tremendamente difícil vê-LO nesses exemplos ofertados e outros que passaram no nosso pensamento. Nossos olhos não veem, pois nosso coração acostumou a não sentir. Existe um trecho da condenação de Jesus em que Pedro, aquele que disse que o seguiria aonde Ele fosse, por medo, resigna-se apenas a olhá-lo de longe. “(…) Prenderam-no então e conduziram-no à casa do príncipe dos sacerdotes. PEDRO SEGUIA-O DE LONGE“. (Lucas 22, 54). A grande diferença entre nós e aquele que a vida e as opções feitas por seus pais ou por eles mesmos fizeram, É A DISTANCIA com qual acompanham a Jesus. Dinheiro não repara essa distância, tão pouco constrói outro caminho, apenas através da DIGNIDADE, do RESPEITO e do DIREITO SENDO CUMPRIDO poderão obter. “(…) O Reino de Deus não é comida nem bebida, mas justiça, paz e gozo no Espírito Santo“. (Romanos 14, 27). Acreditar em Deus é esperar numa recompensa futura, mas não fazer as boas obras pensando em obtê-la, pois se assim fizéssemos de que valeu nossa boa vontade se no fundo era fruto de um INTERESSE? Mudar o paradigma hoje poderá garantir a vida amanhã. Voltemos a aquela reflexão: Deus habita em na nossa fraqueza. O mundo nos ensinou (e ainda ensina) a sermos racionais e frios como aqueles precisam ser ao lidar dia-a-a-dia com a morte, a doença, as calamidades, a fome… Quando não sofremos mais com a angústia do irmão que pede, quando não lutamos mais pela justiça de quem merece, quando fechamos os olhos ao sofrimento, o mundo nos chama de fortes, adaptados, preparados. Pensar no outro passou a ser um grande sinal de fraqueza e ao depararmos e conflitarmos esse grande paradigma provavelmente encontraremos a mão de Deus. “(…) Felizes as pessoas que têm o coração puro, pois elas verão a Deus. – Felizes as pessoas que trabalham pela paz, pois Deus as tratará como seus filhos”. Fazendo uma ultima reflexão: QUANTO MAIS CRESCE O NÚMERO DE BOTÕES E FUNÇÕES DOS NOSSOS CONTROLES-REMOTOS, MENOS GENTE SE ENGAJA NA LUTA EM FAVOR DE QUEM MAIS PRECISA. Bem aventurados somos nós que persistimos em acreditar. Um imenso abraço fraterno!

12 – AS BEM-AVENTURANÇAS

O Evangelho de Mateus, organizado de maneira catequética, apresenta o início do ministério de Jesus, após o chamado dos discípulos, com o Sermão da Montanha. A abertura do sermão é feita com a proclamação das bem-aventuranças. A subida de Jesus à montanha exprime uma relação com Moisés que, no alto da montanha, recebeu de Deus os mandamentos da Lei. Agora é o próprio Jesus, Filho de Deus, que sobe à montanha e transmite aos discípulos, que vêm a ele, as bem-aventuranças, em substituição àqueles antigos mandamentos. Enquanto os mandamentos eram expressos em forma imperativa, as bem-aventuranças de Jesus são oferecidas aos discípulos como um projeto de felicidade ao qual vale a pena aderir. A pobreza, assumida interiormente, com convicção, é o desapego das riquezas, que devem ser partilhadas. Os que choram são os que sofrem e são solidários com os excluídos, humilhados e explorados. Os mansos têm um coração aberto, acolhedor e compreensivo. Os que têm fome e sede de justiça lutam pela construção de uma sociedade mais justa. Os misericordiosos perdoam e libertam os que têm uma consciência carregada de culpabilidade sob a ideologia do sistema opressor. Os puros de coração são sensíveis aos aspectos mais sutis da dignidade da condição humana. Os pacíficos criam laços de convívio fraterno. com alegria e harmonia. A perseguição e a injúria são os sofrimentos impostos pelos poderosos contra aqueles que se empenham no estabelecimento da justiça. Pela prática das bem-aventuranças, na plenitude do amor, somos, de fato, filhos de Deus (segunda leitura). Os bem-aventurados não são um “pequeno resto”, mas sim “uma multidão imensa de todas as tribos, nações línguas e povos” (primeira leitura), em comunhão com Jesus. Encontramos na prática das bem-aventuranças a felicidade de um mundo de compaixão, partilha e reconciliação, fraterno e solidário, na alegria e na paz.

13 – OS SANTOS PREPARAM O REINO

A solenidade de Todos os Santos é tão importante, que tem precedência sobre o domingo do tempo comum. Celebra todos os santos, não só os canonizados. A canonização de um santo é algo custoso em todos os sentidos, e muitos e muitos de nossos pobres perseguidos, que contribuíram fortemente para o advento do reinado de Deus no mundo, não deixaram recursos suficientes para serem canonizados. De dom Oscar Romero, ainda não canonizado em razão de protelações no processo, até as humildes, analfabetas e desconhecidas donas Sebastianas, todos os santos são comemorados hoje. Eles mereceram ser assinalados para que escapassem da segunda morte, a morte definitiva. Os trabalhos de sua vida, quando não sua morte em favor das vítimas deste nosso mundo, uniram-nos ao sangue do Cordeiro e deram-lhes a faixa de campeões e o troféu da vitória. Viveram como fiéis filhos de Deus. Essa grandeza de serem filhos de Deus, a qual procuraram preservar contra tudo e contra todos, agora se abriu, como o botão de uma rosa, na glória de Deus. Entre eles, pobres e perseguidos que enxugaram as lágrimas dos que choravam, mataram a fome dos famintos da verdadeira justiça, tornaram senhores os que não eram ninguém neste mundo. Fizeram a sua parte, construíram a verdadeira paz. 1º leitura (Ap. 7,2-4.9-14): O livro do Apocalipse foi escrito para dar esperança a comunidades cristãs da Ásia Menor, comunidades pobres e vítimas de perseguição. Eram perseguidas por não adorarem o império. Em cidades da Ásia Menor é que tinha surgido o primeiro templo dedicado à deusa Roma, ali é que estava “o trono de satanás”, o lugar onde se cultuava a imagem do divino imperador, o “deus acessível”. Quem participava desse culto recebia uma marca que lhe abria todas as portas. Quem não participava, além de excluído, poderia ser até mesmo condenado à morte. Os cristãos não participavam e por isso eram marginalizados e perseguidos. Chamava-se João o missionário itinerante que animava essas comunidades, incentivando-as a não ceder ao culto do império. Por isso ele foi preso na ilha de Patmos e de lá envia o escrito, numa linguagem que os pobres e perseguidos poderiam entender e as autoridades do império não. Dá-lhes ânimo e aumenta-lhes a autoestima. No trecho que vamos ouvir na primeira leitura de hoje, ele fala de uma visão do céu. Multidões, milhares de cada clã (12), de cada uma das doze tribos (12×12 = 144) do povo hebreu que não cederam ao culto imperial, recebem outra marca que não os deixa ser vítimas do castigo que virá para os opressores. Além deles, estão presentes também as multidões incontáveis dos santos de todas as outras tribos e nações. Todos são vencedores, vestem mantos brancos, a cor dos vencedores nas competições esportivas – poderíamos dizer hoje: trazem a faixa de campeões –, e têm o troféu, a palma, nas mãos. Não cultuaram Roma e o imperador, agora cultuam a Deus e ao Cordeiro. De onde vieram eles? Vieram da grande tribulação, a pobreza unida à exclusão social e à perseguição. Sua morte, seu sangue, unida ao sangue, morte, do Cordeiro, deu-lhes o manto branco da vitória. A resistência até a morte deu-lhes a vida sem fim. 2º leitura (1Jo. 3,1-3): Os que nós chamamos de santos e hoje celebramos são os nossos irmãos que estão na glória. Como diz a segunda leitura de hoje, a graça de ser filhos de Deus, o botão que estava dentro deles, já se abriu em flor. Essa graça, esse dom de amor do Pai em nosso favor, faz-nos diferentes, como o mundo distante do Pai não é capaz de entender. Falta-nos hoje apenas aquilo que não falta aos santos que celebramos: ver Jesus Cristo. Só nos falta o ver segundo o conceito joanino de experimentar, conviver, ter comunhão plena com o Filho, Jesus. Isso nos tornará totalmente semelhantes a ele. E é essa convicção que nos faz manter-nos distantes do mal, tal como ele fez e como todos os santos fizeram. Evangelho (Mt. 5,1-12a): Um detalhe, geralmente não observado na maioria das traduções, faz grande diferença na interpretação do evangelho de hoje. Trata-se da primeira frase. Em geral, dizem as traduções: “Vendo as multidões”. O tempo do verbo grego utilizado (aoristo), porém, pede que se traduza: “Tendo visto as multidões, Jesus subiu à montanha…”. Foi porque viu aquelas multidões que Jesus subiu à montanha e passou a dar a instrução aos discípulos, como Moisés, da montanha, deu ao povo a Lei ou Instrução de Deus. À vista das multidões, ele faz o Sermão da Montanha. Que multidões eram essas? Eram as multidões de sofredores da Judeia e da Galileia, como também de fora, que, no final do capítulo 4, vinham buscar em Jesus uma solução para os seus problemas. Podemos dizer que são toda a humanidade sofredora. Por causa dela, para benefício dela, Jesus se senta como mestre, rodeado pelos discípulos, sobre uma montanha que lembra o monte Sinai. Ele instrui os discípulos não para que estejam voltados para o próprio umbigo, mas para que cuidem das multidões sofredoras que acorrem de toda parte. Isso ajuda a entender a instrução. Notar que, das oito bem-aventuranças básicas, a primeira e a última se referem ao tempo presente: “deles é o reino dos céus”. É preciso ter bem claro que “reino dos céus” não é o céu, a glória eterna. “Reino dos céus”, frequente no Evangelho de Mateus, é o mesmo que reino ou reinado de Deus. Ele começa aqui na terra, onde o que se liga ou desliga é confirmado no céu; assemelha-se ao campo de terreno bom e terreno ruim, à rede que pega peixes bons e maus, à lavoura onde o joio se mistura ao trigo. Só o respeito judaico pelo Nome o faz ser substituído pela palavra céus. A eles, aos pobres e aos perseguidos, pertence, portanto, o reinado de Deus, que tem início aqui na terra. Os primeiros são os “pobres por espírito”, isto é, por força interior, por convicção, e os últimos são os “perseguidos por causa da justiça”, perseguidos por buscarem a justiça do reinado de Deus, tema caro a Mateus. Assim, os pobres e os perseguidos, de certo modo, identificam-se. E quem diz que aquele que aceita a pobreza, que não faz caso do dinheiro, não incomoda e não sofre por isso? Mas desses é o reinado de Deus; eles é que estabelecem o reinado que não é dos césares nem do dinheiro. São os santos que hoje celebramos. Nas bem-aventuranças seguintes estão as consequências disso. Os que agora estão chorando mais adiante vão parar de chorar, serão consolados. Os que têm fome e sede de ver acontecer a verdadeira justiça hão de matar essa fome. Os carentes, em geral traduzidos por “mansos”, os que não são ninguém, que não têm vez nem voz, serão senhores, serão os donos da terra. Na sequência, outras três bem-aventuranças: os que colaboram, ou seja, os que têm misericórdia, os que têm intenções retas (“coração puro”) e os que promovem a paz ou felicidade plena também terão sua recompensa. São a quinta, a sexta e a sétima bem-aventurança. Voltando-se depois para os discípulos, nós e os santos hoje festejados, Jesus nos diz felizes porque perseguidos. É pena que o lecionário tenha cortado o final do v. 12, que dá o motivo da bem-aventurança da perseguição: “porque foi assim que sempre trataram os verdadeiros profetas”. Quem não é perseguido, quem não incomoda os senhores deste mundo, sejam pessoas ou instituições, não é profeta, não é santo. DICAS PARA REFLEXÃO: São oito as bem-aventuranças. Oito está além da plenitude, que é o sete. Oito é Jesus Cristo, só ele vai além da plenitude. Ele é o primeiro pobre por opção e o primeiro mártir, o primeiro perseguido. Só ele põe os fundamentos do reinado de Deus. Só ele tira os pecados do mundo. Na cruz, o príncipe deste mundo, o que manda neste mundo, é posto para fora. Nossos irmãos, os santos, “lavaram seus mantos no sangue do Cordeiro”, alcançaram a vitória, assemelhando-se à pobreza e à perseguição de Jesus. Quando, na eucaristia, celebramos a morte do Cordeiro pascal, com ele celebramos o martírio, os trabalhos e a pobreza dos santos de ontem e de hoje. O pão e o vinho partilhados, que celebram o horizonte da comunhão perfeita e plena, sem lágrimas, sem fome e sem exclusão, significam também a pobreza de quem se parte em pedaços e a coerência que torna capaz a resistência à mais cruel perseguição. Feliz não é o rico, o que tem tudo, mas não tem a si mesmo, pois pertence ao seu dinheiro. Feliz não é o elogiado por todos, o aprovado por todos os poderosos do mundo, aquele que por ninguém é perseguido, porque nada tem para dizer, em nada colabora, nada acrescenta, só sabe negar-se a si mesmo e à própria consciência para agradar aos que podem. Parece agradar a todos, só não agrada a si mesmo. Felizes são o pobre e o perseguido, e, com eles, muitos outros também serão felizes. Isso é ser santo.

14 – A FELICIDADE DOS POBRES

As bem-aventuranças marcam, no Evangelho de Mateus, o início do Sermão da Montanha (Mt. 5,1-7,28), a nova constituição do povo de Deus. O v. 1 mostra a quem se destina essa boa notícia: às multidões vindas da Síria, da Galileia, da Decápole, de Jerusalém, da Judeia e do outro lado do Jordão (cf. 4,24-25). Há gente vinda de todos os lugares. Isso denota que a mensagem de Jesus não tem fronteiras (Mateus pôs, como destinatários das bem-aventuranças, os cristãos das comunidades às quais escreveu seu evangelho). Vendo as multidões, Jesus sobe à montanha, que, simbolicamente, é o lugar de Deus e do encontro com ele. A montanha recorda o Sinai, o monte onde foi selada a aliança com o povo hebreu que saiu da escravidão egípcia. Foi aí que Moisés recebeu as tábuas da Lei (Decálogo), a constituição do povo de Deus. Jesus, portanto, está para promulgar a nova constituição do povo de Deus, um povo sem fronteiras e sem discriminações; ele vai inaugurar a nova aliança com os pobres e marginalizados do mundo inteiro, revelando que Deus se solidarizou com eles a ponto de confiar-lhes o Reino. O clima dessa nova aliança é o da confiança ilimitada que circula entre Deus e seu povo. De fato, no tempo do deserto, o povo hebreu devia permanecer longe do monte Sinai, sem se aproximar. E Deus falava ao povo por meio de Moisés. Aqui, os discípulos se aproximam do Mestre na montanha, e Deus lhes fala em Jesus – o Emanuel –, que, sentado, ensina como Mestre que tem autoridade. As bem-aventuranças são propostas de felicidade. A constituição do povo de Deus não impõe leis. Jesus simplesmente constata a situação do povo que o segue (pobres, afligidos, despossuídos [= mansos], famintos); percebe o esforço que fazem para mudar a situação (misericórdia/solidariedade, pureza de coração, promoção da paz); conhece as dificuldades e perseguições que enfrentam para criar a nova sociedade e os proclama felizes, herdeiros do projeto de Deus. A constituição que Jesus promulga no Sermão da Montanha nasce da constatação das lutas do povo sofrido. Deus se solidarizou com ele, confiando-lhe o Reino. a. A felicidade dos pobres (vv. 3,10). A primeira bem-aventurança: “Felizes os pobres em espírito, porque deles é o reino do céu” (v. 3), juntamente com a oitava: “Felizes os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o reino do céu” (v. 10), são a síntese de todas as bem-aventuranças. As demais (vv. 4 – 9) esclarecem alguns aspectos dessas duas. A primeira e oitava possuem promessa idêntica: “porque deles é o reino do céu”. Não se trata propriamente de uma promessa, mas de constatação do que está acontecendo: o reino do céu já é dos pobres em espírito e dos perseguidos por causa da justiça! Esses dois grupos (pobres em espírito e perseguidos por causa da justiça) constituem, na verdade, um único grupo. As demais bem-aventuranças trazem uma promessa futura: serão consolados, possuirão a terra etc. Contudo, não é para esperar a realização dessa promessa no além. Ela é decorrência da opção que Deus fez pelos pobres e oprimidos, confiando-lhes o Reino, portador da plenitude dos bens: liberdade, vida, fraternidade, partilha, paz. Quando será realizado tudo o que aparece como promessa? Quando a nova prática da justiça fizer germinar e crescer o Reino. A primeira bem-aventurança proclama felizes os “pobres em espírito”. Frequentemente se tenta pôr panos quentes na força dessa expressão, como se os pobres em espírito fossem pessoas humildes, independentemente de sua condição social. A palavra pobre recorda os ‘anawim do Antigo Testamento, da época de Jesus e das comunidades de Mateus: são os que depositaram sua confiança em Deus enquanto última instância, porque a sociedade lhes negava justiça. São pobres em espírito, ou seja, escolheram a pobreza (cf. 6,24) não porque a miséria os fizesse felizes, mas porque nessa condição participam do projeto de Deus, que é a construção da nova sociedade, baseada na justiça e igualdade. Por isso Jesus afirma que o reino do céu é deles! Deus é o rei dos pobres (poeticamente, R. Tagore afirma que “Deus cada vez mais se cansa dos grandes reinos, porém jamais das pequeninas flores”) e com eles formará o novo povo; sendo pobres, saberão concretizar o Reino na partilha e solidariedade (cf. 14,13 – 23; 15,32-39). O Reino é deles porque, vivendo assim, realizam o pedido de Jesus (cf. 4,17: “Convertam-se, porque o reino do céu está próximo”). A melhor definição dos “pobres em espírito” que descobri é a que foi apresentada por uma mulher do povo: “O pobre em espírito é como o peixe no mar: tem toda a água à sua disposição, mas não a guarda para si; deixa-a para todos os peixes”. A sociedade estabelecida, ambiciosa de poder, glória e riqueza (cf. 4,9), não suporta uma sociedade alternativa que se forma com base na partilha e comunhão dos bens. Não suportando os pobres que aprenderam a partilha e a promovem como forma de realizar o Reino, persegue-os, procurando eliminá-los (v. 10). Ser perseguido por causa disso constitui desgraça? Não. Para Jesus, e na ótica do Reino, é sinônimo de felicidade, pois a perseguição da sociedade estabelecida mostra que o caminho dos pobres que lutam pela justiça é autêntico: deles é o reino do céu! Contudo, é bom lembrar que não se trata de perseguição por qualquer motivo, mas por causa da justiça do Reino, e esta se traduz na solidariedade, igualdade e fraternidade. Aliás, a justiça é a chave que abre todas as portas do Evangelho de Mateus. Temos, assim, um critério claro para discernir se alguém é ou não pobre em espírito: basta examinar seu compromisso com a justiça do Reino e ver se está sendo, de alguma forma, perseguido por causa dela. b. A situação dos pobres que buscam a libertação (vv. 4-6). Os vv. 4-6 descrevem a situação dos pobres que buscam a libertação. Eles são afligidos. Essa bem-aventurança se inspira no Antigo Testamento (cf. Is. 61,1). Lá, os aflitos são pessoas cativas e aprisionadas, vítimas de sociedade cruel e opressora. Afirmando que os aflitos serão consolados, Jesus lhes garante que o Reino tem força e capacidade de libertá-los das opressões a que foram submetidos. E por isso são felizes! Concretamente, nos capítulos 8-9, Mateus mostra como e quando isso acontece: a cura do leproso, do servo do centurião etc. Os mansos são os que foram subjugados pelos poderosos. Também essa bem-aventurança se inspira no Antigo Testamento, exatamente no Sl. 37,10-11. Afirma-se aí que “mais um pouco e não haverá mais injusto; você buscará o lugar deles, e não existirá. Mas os pobres vão possuir a terra e deleitar-se com paz abundante”. Portanto, os mansos são os que foram “amansados” pelo poder tirano, que os privou da terra, impossibilitando-os até de reivindicar seus direitos (o estudioso Alonso Schökel traduzia “mansos” por “despossuídos”). Olhando para a promessa que lhes é feita, é possível identificá-los com os sem-terra do tempo de Jesus, das comunidades de Mateus e de todos os tempos. Fazendo parte do Reino, eles possuirão a terra (com artigo!), isto é, não só receberão de volta seus terrenos roubados pelos poderosos latifundiários, mas serão senhores do mundo, porque a partilha fará com que os bens da criação sejam de todos. Lida à luz de nossa realidade, essa bem-aventurança soa mais ou menos assim: “Felizes os sem-terra que lutam pela justiça, porque a realeza de Deus sobre eles lhes garante que a terra é de todos”. Jesus proclama a felicidade dos que lutam pela justiça, dos que dela sentem necessidade como alimento vital e diário (ter fome e sede), porque na utopia do Reino não há um sinal sequer de injustiça. c. Opções e práxis dos pobres: construir a nova sociedade (vv. 7-9). Os pobres, que entraram na dinâmica do Reino, são misericordiosos, isto é, solidários. Partilha e comunhão impedem que alguém retenha qualquer coisa para si. Nesse clima de solidariedade, ninguém passa necessidade. Quem dá recebe, não só das pessoas, mas do próprio Deus, que entregou o Reino nas mãos dos que aprenderam a repartir. É a primeira opção dos que entraram na dinâmica do Reino: pôr tudo em comum. E por isso são felizes! A segunda opção é a pureza de coração. Para os semitas, coração é a sede das opções profundas que marcam a vida inteira. Para eles, pensa-se com o coração (Mt. 15,19 mostra que do coração das pessoas nasce toda espécie de opção que contrasta com o projeto de Deus). Ser puro de coração é ter conduta única, em perfeita sintonia com o Reino. Essa bem-aventurança se inspira no Sl 24,4, em que pureza de coração está associada a “mãos inocentes”. Mãos inocentes são resultado de um “coração puro”: sem violência, sem corrupção, sem exploração etc. Os pobres do Reino são puros de coração porque não se apropriam da vida do próximo, como os poderosos. Sua conduta é íntegra. São felizes porque, agindo assim, veem a Deus, ou seja, experimentam-no concretamente na vida. Deus está presente em todo clamor ou sinal de vida. Quem possui essa “pureza de coração” o vê e o encontra a cada passo. No Antigo Testamento, a pureza dependia de uma série de ritos mediante os quais as pessoas tinham acesso a Deus, que se manifestava no Templo. Na nova aliança – e na linha do Sl 24 – pureza é sinônimo de opção pela justiça do Reino e respeito pela integridade das pessoas. Deus não se manifesta mais no Templo (quando Mateus escreve o evangelho, o templo de Jerusalém já não existe). As pessoas o experimentam de forma direta no dia a dia e no relacionamento fraterno. Essa opção gera felicidade: felizes os puros de coração! Jesus proclama felizes os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus. A promoção da paz (shalom = plenitude dos bens) é fruto da solidariedade e pureza de coração. Paz é bem-estar que exclui toda injustiça, opressão e violação de direitos. Não se trata de paz em nível pessoal, mas sobretudo em nível social. Na dinâmica do Reino, uma pessoa só é verdadeiramente feliz quando todas o são. A luta pelo bem-estar de todos, como o requer o projeto divino, torna os seres humanos filhos de Deus. Há, portanto, estreita colaboração entre o Criador e as criaturas. O que o Pai faz, os filhos também fazem. Os pobres que optaram pelo Reino são capazes dessa práxis. Jesus garante que disso depende a felicidade deles! d. A comunidade cristã em meio aos conflitos (vv. 11-12a). A última bem-aventurança (vv. 11-12) revela as tensões e conflitos enfrentados pelas comunidades migrantes na Síria, no meio das quais nasceu o Evangelho de Mateus. No tempo em que o evangelho foi escrito, essas comunidades passavam por crise de identidade, com perigo de abandono do projeto de Deus. Os conflitos vinham do império romano e do judaísmo oficial, representado pelos doutores da Lei e fariseus: a sociedade estabelecida começou a difamar os cristãos, caluniando-os e perseguindo-os. Tornava-se difícil resistir diante das pressões e tribulações de toda espécie. O evangelho lhes lembra que ser discípulo de Jesus é ser como os profetas do Antigo Testamento: “Desse modo perseguiram os profetas que vieram antes de vocês” (v. 12b). 2º leitura (1Jo 3,1-3): A esperança que anima e purifica. A primeira carta de João foi “dirigida às comunidades cristãs da Ásia Menor, que passavam por séria crise, provocada por um grupo de dissidentes carismáticos. Estes propunham uma doutrina gnóstica, que afirmava que o homem se salva graças a um conhecimento religioso especial e pessoal. Eles negavam que Jesus era o Messias e se gloriavam de conhecer a Deus, de amá-lo e de estar em íntima comunhão com ele; afirmavam ser iluminados, livres do pecado e da baixeza do mundo: não davam importância ao amor ao próximo e talvez até odiassem e hostilizassem a comunidade… A carta mostra que é vazio e sem valor qualquer espiritualismo que não se traduz em comportamento prático. Não é possível amar a Deus sem amar o próximo e sem formar comunidade: se Deus é Pai, os homens são filhos e família de Deus, e consequentemente todos devem amar-se como irmãos” (Bíblia Sagrada – Edição Pastoral, Paulus, São Paulo, p. 1.578). Os versículos escolhidos como segunda leitura deste domingo pertencem a uma seção que vai de 2,29 a 4,6, cujo tema é viver como filhos de Deus. Como realizar isso? Os dissidentes carismáticos afirmavam que era mediante um conhecimento religioso especial e pessoal. O autor da carta prova o contrário: viver como filhos de Deus implica a prática da justiça: “todo aquele que pratica a justiça nasceu de Deus” (2,29). A prática da justiça mostra que Deus é justo e nos torna seus filhos. Portanto, ser filho de Deus é estar em sintonia com o projeto do Pai (cf. evangelho: “Felizes os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus”). O texto salienta que o amor do Pai é a grande força que sustenta a caminhada da comunidade cristã, apoiando e encorajando a luta pela implantação do projeto de Deus. O conflito está bem presente no texto. João o exprime, empregando a expressão “o mundo” (os que não aderiram ao projeto de Deus): o “mundo”, descompromissado com a vontade divina, não reconhece, isto é, hostiliza, calunia, difama e persegue os que desejam implantar na terra a justiça (cf. 3,1). Os cristãos, porém, têm condições de superar as dificuldades e conflitos da caminhada. Sua força está em serem filhos de Deus. Por ora não é possível ver claro o que vamos ser, porque a manifestação de Cristo ainda não é plena. Mas, quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele, porque nós o veremos como ele é (3,2). Enquanto não chega a plena manifestação, cabe à comunidade cristã, na esperança, lutar para ser pura como Jesus é puro (v. 3). Em outras palavras, faz-se necessário resistir e implantar a justiça, de modo que nossa prática traduza as palavras e gestos de Jesus. Ser filhos de Deus, portanto, é ser filhos no Filho, que mostrou ao mundo a justiça do Pai. Essa é a esperança que anima e purifica. 1º leitura (Ap. 7,2-4.9-14): A vitória dos oprimidos. O capítulo 7 do Apocalipse funciona como uma espécie de pausa para reflexão dentro da “seção dos selos” (6,1-7,17). A seção se caracteriza pela abertura progressiva, por parte do Cordeiro, dos sete selos. Os primeiros quatro (6,1-8) nos apresentam crua fotografia da humanidade arrastada pela ganância, pela violência, pela exploração e pela morte. Diante dessa situação desastrosa, abre-se o quinto selo (vv. 9-12). O clamor dos mártires provoca a reversão dos fatos e a intervenção de Deus e do Cordeiro, pois chegou o grande dia de sua ira: quem poderá ficar de pé? (sexto selo). O capítulo 6 termina com grande expectativa. Quem poderá ser considerado inocente (é este o sentido dessa expressão) diante da intervenção do Deus que julga a humanidade? O capítulo 7, ao qual pertencem os versículos da leitura de hoje, procura responder a essa expectativa em dois momentos sucessivos. Num primeiro momento, abre-se uma janela em direção ao passado (vv. 4-8). O autor do Apocalipse se inspira no recenseamento dos hebreus saídos do Egito (Nm. 1,20-43) para mostrar que Deus preserva do julgamento (os Anjos que seguram os quatro ventos, 7,1) os que lhe são fiéis (chamados de servos, ou seja, profetas) e os salva (o sinal que os eleitos recebem na fronte é sinônimo de salvação, v. 3; cf. Ez 9,4). Segue-se, então, o recenseamento dos eleitos: 144 mil. O autor, utilizando o simbolismo dos números, mostra que os que lutam e resistem são muitos e formam uma totalidade perfeita (144 mil é o resultado da multiplicação de números perfeitos: 12 x 12 x 1000). A segunda janela se abre para o presente/futuro da comunidade cristã (vv. 9-17). Se, no passado, Israel foi salvo da escravidão egípcia, com maior razão agora o Cordeiro salvará, conduzirá os que permanecem fiéis, enxugando-lhes as lágrimas (enxugar as lágrimas é sinônimo de “fazer justiça”). Por isso o autor vê uma multidão que ninguém podia contar: gente de todas as nações, tribos, povos e línguas (isto é, do mundo inteiro, v. 9a). É aqui que se responde à pergunta angustiante com que se encerrava o capítulo 6: “Estavam todos de pé diante do trono e do Cordeiro” (v. 9b). E não só podem ficar de pé (isto é, são declarados inocentes), como também participam da própria vida divina: vestem-se de branco (cor que, no Apocalipse, remete à vitória de Cristo sobre a morte) e são vitoriosos (trazem palmas na mão, v. 9c). Essa multidão reconhece que a salvação vem de Deus e do Cordeiro (v. 10) e sua aclamação é seguida pela dos Anjos, Anciãos e Seres vivos, que tributam a Deus tudo o que lhe é devido (v. 12). A comunidade cristã, na escuta do texto do Apocalipse, em clima de celebração e discernimento, é convidada, na pessoa do autor, a identificar quem são os que estão vestidos de branco e de onde vieram (v. 13). Diante da incapacidade em desvendar o mistério (v. 14a), um dos vinte e quatro Anciãos dá a chave de leitura: “São os que vêm chegando da grande tribulação. Eles lavaram e alvejaram suas roupas no sangue do Cordeiro” (v. 14b). A partir disso, a comunidade cristã está em condições de descobrir, no meio dessa imensa multidão, seus mártires e santos, que resistiram até o sangue. A memória deles anima a difícil caminhada dos que agora estão lutando para implantar o projeto de Deus na história. O Apocalipse foi escrito para animar comunidades perseguidas até a morte pela opressão e repressão do império romano. A vitória do Cristo sobre as forças do mal e a memória dos mártires das comunidades devolveram aos cristãos a força própria de sua vocação: a capacidade de denunciar e resistir a todo poder absolutizado que oprime e mata. Os mártires são vitoriosos e estão com Cristo: cabe a nós resistir e lutar. PISTAS PARA REFLEXÃO: A festa de Todos os Santos é momento oportuno para uma revisão da caminhada da comunidade. Olhando para os que nos precederam, santos e mártires, a comunidade é convidada a se questionar sobre seu caminho de santidade. Somos filhos de Deus. Nossa filiação, porém, se traduz na prática da justiça (II leitura). A prática da justiça se traduz na vivência das bem-aventuranças (evangelho). Ao tentar vivê-las, os cristãos deparam com conflitos, calúnias, perseguições e morte patrocinados pela sociedade estabelecida que não aderiu ao projeto de Deus. O que isso significa para nós: desgraça ou felicidade? A memória dos mártires da caminhada é esperança e conforto: Jesus tem a última palavra sobre os conflitos e as forças do mal. Urge à comunidade denunciar e resistir em meio às tribulações (I leitura). Não há outro caminho de santidade!

15 – SANTIDADE: O JEITO HUMANO DE SER

Nascemos de Deus. Fomos criados à sua imagem e semelhança. Deus é bom. Deus é santo. Podemos ser bons e santos, realizando a vontade de Deus. Nosso modelo é Jesus Cristo: ele nos ensinou o caminho. Na proclamação das bem-aventuranças, Jesus indica como viver na santidade: com pobreza, mansidão, justiça, misericórdia, pureza de coração e empenho pela paz (Evangelho). Desde as primeiras comunidades cristãs, temos o exemplo de uma multidão incontável de mulheres e homens que seguiram radicalmente a Jesus Cristo. Muitos foram cruelmente perseguidos e martirizados por causa de sua fidelidade ao evangelho (I leitura). Somos filhos e filhas de Deus. Por isso, o nosso jeito de ser deve estar de acordo com a dignidade conferida pela filiação divina. Podemos viver no mesmo amor com que o Pai nos ama, de modo perseverante, até a plenitude (II leitura). O tempo transitório em que estamos neste mundo é a oportunidade de manifestar a glória de Deus por meio de uma vida santa. Evangelho (Mt. 5,1-12a): Quem são os bem-aventurados? A proclamação das bem-aventuranças, no Evangelho de Mateus, dá a abertura ao “Sermão da Montanha”, no qual Jesus apresenta a nova justiça. Segundo o ensinamento oficial do judaísmo no tempo de Jesus, a justiça baseava-se no cumprimento da Lei. Mateus, que escreve para os cristãos provindos do judaísmo, indica novo caminho: a justiça agora é praticar os ensinamentos de Jesus. Assim como a lei antiga veio por meio de Moisés no monte Sinai, a nova lei vem por meio de Jesus. Assim como se deu com Moisés, a nova justiça é proclamada por Jesus sobre uma montanha, para os judeus lugar de manifestação da vontade divina. A posição de Jesus (sentado) revela que possui a autoridade de um mestre, conforme o costume entre os rabinos judaicos. É um discurso solene, de importância especial para as comunidades cristãs. O primeiro aspecto a ser ressaltado é o olhar de Jesus sobre a multidão. É de dentro dela que Jesus vai tirar os princípios que devem orientar os seus seguidores. Não é por acaso que os discípulos se aproximam de Jesus. O sermão dirige-se prioritariamente a eles. As lições são tiradas da Sagrada Escritura e, especialmente, da vida das pessoas do povo. Nela, Jesus encontra os valores que fundamentam o seu evangelho, a boa notícia de vida para todos. A multidão que segue a Jesus é formada de pobres em espírito. Trata-se de pessoas vítimas do sistema dos poderosos, vergadas sob o peso do legalismo religioso e da opressão política e econômica. São pessoas indefesas que vivem da esperança de dias melhores. A essa gente Jesus vem trazer a libertação. O horizonte é o reino de Deus, onde não haverá exclusão. Os pobres são os protagonistas do reino. Jesus conta com eles, pois clamam por mudança social e, por isso, se mostram abertos à nova proposta. São pessoas mansas que rejeitam a violência como caminho de solução de seus problemas; possuem a consciência de sua pequenez e confiam na bondade e grandeza de Deus, superando a amargura e o desejo de vingança. Como os oprimidos na origem de Israel, anseiam por uma terra de liberdade e de vida digna. São pessoas aflitas devido à penúria e à instabilidade em que vivem; choram marcadas pelo tratamento desumano, pelo abandono social, pelas dívidas, doenças, acusações injustas… São pessoas que têm fome e sede de justiça, pois sentem na pele os efeitos de uma sociedade baseada no poder do mais forte. A fome e a sede eram uma realidade cotidiana da maioria das pessoas que seguiam a Jesus em suas jornadas missionárias e também das que pertenciam às comunidades cristãs primitivas. São pessoas que, apesar de oprimidas, são misericordiosas. Elas se mantêm abertas e acolhedoras; amam incondicionalmente, reconhecem-se pecadoras e esperam a salvação que vem de Deus… São pessoas puras de coração: mesmo excluídas do sistema religioso oficial por serem consideradas impuras (doentes, estrangeiras, pecadoras…), não se deixam contaminar pelos interesses dos dominantes, mas cultivam a confiança em Deus e buscam viver na transparência e na autenticidade. São pessoas que promovem a paz num contexto de conflitos e guerras. Não são “pacíficas” no sentido de evitarem envolver-se em questões sociais conflituosas, mas são militantes por um mundo de paz. Suas atitudes são marcadas pela “não violência ativa”, desdobramento do amor que caracteriza os filhos e filhas de Deus… São pessoas, enfim, perseguidas por causa da justiça, que sofrem as consequências de ser fiéis à proposta do reino de Deus. As bem-aventuranças não são expressão de pena ou de consolo oportunista para as pessoas sofredoras; pelo contrário, são a convocação de Jesus para o compromisso dos pobres em vista de sua libertação. Elas sintetizam o caminho de santidade que pode ser seguido por todas as pessoas de boa vontade. 1ª leitura (Ap. 7,2-4.9-14): Uma multidão de santos. O Apocalipse foi escrito para encorajar as comunidades cristãs a perseverar no meio de grande sofrimento. O texto deste domingo reflete o testemunho dado por uma multidão de cristãos diante da violenta perseguição desencadeada pelo imperador Nero ao redor do ano 65. A visão é um recurso próprio do gênero apocalíptico para revelar o que os olhos da fé captam por trás dos acontecimentos. As comunidades perseguidas, mergulhadas em profunda dor, gritam por justiça. Deus intervém a seu favor. Os anjos são seus justiceiros. Devem, no entanto, respeitar todos os que são assinalados. A cena lembra a saída do povo do Egito, quando as casas dos escravos hebreus foram marcadas com o sangue do cordeiro para serem protegidas da vingança divina. As 144 mil pessoas assinaladas (12 x 12 x 1.000) representam a totalidade dos servos e servas de Deus, tanto da primeira aliança como da segunda. São todas as que não se contaminam com a ideologia dos poderosos. São as que permanecem fiéis ao plano de Deus a ponto de entregar a própria vida, como fez Jesus, o Cordeiro imolado. Esse é o sentido das vestes brancas. Deus é o protetor e salvador dos pequeninos, dos indefesos e dos perseguidos por causa da justiça. São milhares de “todas as nações, tribos, povos e línguas”. Pertencem a todas as tradições religiosas. Com coragem e perseverança, seguem o caminho do bem e lutam por um mundo de fraternidade. Nós, cristãos, recebemos a marca do batismo, que nos torna servos e servas de Deus. Somos convocados a perseverar no seguimento de Jesus; somos chamados a ser santos, vivendo e anunciando os valores evangélicos da misericórdia, da mansidão, da justiça, da paz… 2ª leitura (1Jo 3,1-3): Somos filhos e filhas de Deus. O amor de Deus não tem limites. Ele fez de nós participantes de sua própria natureza divina. Somos seus filhos e filhas já neste tempo transitório e o seremos plenamente na ressurreição. Essa verdade tão bela nos enche de dignidade e nos impulsiona a viver de acordo com a vocação divina. O jeito divino de viver não se conforma com os sistemas baseados no domínio de uns sobre os outros e sobre a criação. Como fez Jesus, os cristãos devem posicionar-se de forma clara a favor de uma sociedade onde reine o amor fraterno, pois “quem diz que ama a Deus e odeia o seu irmão é um mentiroso” (1Jo 4,20). As pessoas que vivem de modo coerente com o evangelho se confrontam com os interesses egoístas dos que dominam este mundo. Jesus preveniu seus discípulos de que seriam perseguidos, presos e até mortos. Os que sofrem por causa da fidelidade aos valores evangélicos fazem parte dos bem-aventurados… Pistas para reflexão: – As bem-aventuranças indicam o caminho da santidade. Ser santo não significa ser uma pessoa fora do comum. Jesus viveu como uma pessoa normal junto à sua família, comunidade e sociedade. Praticou a vontade do Pai nas pequenas coisas e aprendeu, junto com o seu povo e meditando a Sagrada Escritura, a reconhecer os valores que caracterizam uma vida de santidade. Nas bem-aventuranças, ele sintetiza esses valores, encorajando as pessoas simples e pequeninas a se empenhar por um mundo novo, o reino de Deus. Hoje, de que maneira podemos viver as bem-aventuranças? Quais são os valores a que não podemos renunciar como seguidores de Jesus? Quem são os bem-aventurados na família, na comunidade, na política…? – Somos marcados com o sinal de Deus. As comunidades cristãs primitivas enfrentaram situações de grande crise por causa das perseguições. Muitas pessoas foram martirizadas. Por meio dos encontros comunitários, pelas orações e pela reflexão sobre a palavra de Deus, elas encontraram sabedoria e coragem para superar o medo e confiar na proteção divina. Sentiam-se marcadas pelo amor misericordioso de Deus. Hoje, como enfrentamos os sofrimentos e as crises? Quais meios nos fazem crescer na fé em Deus e perseverar no caminho do bem? Temos a marca divina em nós pelo batismo: o que isso significa na prática? Podemos lembrar o testemunho de alguns mártires e santos… – Somos filhos e filhas de Deus! Somos de natureza divina, nascidos do amor gratuito de Deus. Podemos cultivar, de forma sempre renovada, o jeito divino de ser, que é igual ao jeito verdadeiramente humano: honestidade, respeito mútuo, diálogo, carinho, atenção a quem sofre, acolhida, perdão, cuidado com a natureza…

MONIÇÕES

MONIÇÃO AMBIENTAL OU COMENTÁRIO INICIAL

Neste dia de Todos os Santos e Santas, celebramos em comunhão com a multidão dos que já vivem em plenitude as bem-aventuranças ao lado do Pai. Nós também somos proclamados felizes, porque formamos a grande família de Deus e procuramos seguir aqueles que nos deixaram o exemplo de fidelidade e amor.

MONIÇÃO PARA A(S) LEITURA(S) E O SALMO

A multidão dos fiéis seguidores de Jesus, filhos e filhas amados pelo Pai, reúne-se numa celebração celestial. Ainda em vida são proclamados felizes porque depositaram plena confiança em Deus.

MONIÇÃO PARA O EVANGELHO

Aleluia, aleluia, aleluia. Vinde a mim, todos vós que estais cansados e penais a carregar pesado fardo, e descanso eu vos darei, diz o Senhor (Mt 11,28).

ANTÍFONAS

Antífona da entrada

Alegremo-nos todos no Senhor, celebrando a festa de Todos os Santos. Conosco alegram-se os anjos e glorificam o Filho de Deus.

Antífona da comunhão

Bem-aventurados os corações puros, porque eles verão a Deus. Bem-aventurados os que constroem a paz, porque serão chamados Filhos de Deus. Bem-aventurados os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus (MT 5,8ss).

ORAÇÕES DO DIA

Oração do dia ou Oração da coleta

Deus eterno e todo-poderoso, que nos dais celebrar numa só festa os méritos de todos os santos, concedei-nos, por intercessores tão numerosos, a plenitude da vossa misericórdia. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, Vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.

Preces da Assembleia ou Oração da Assembleia

Na solenidade que nos une a todos os santos, rezemos ao Pai, que pode saciar nosso desejo de felicidade e santidade. Digamos:

— Senhor, ouvi-nos por intercessão dos santos.

— Senhor, vós quereis que vossa Igreja seja santa; purificai-a e fazei que ela brilhe na santidade, vos pedimos.
— Somos vossos filhos e filhas; tornai-nos sempre mais fraternos e solidários com nossos irmãos, vos pedimos.
— As bem-aventuranças são uma proposta de vida; tornai-nos fiéis seguidores do evangelho, vos pedimos.
— Jesus proclamou felizes seus seguidores; ajudai-nos a nos comprometer com seu projeto de vida, vos pedimos.
— Reunistes grande multidão diante do Cordeiro; acolhei a todos os nossos irmãos e irmãs falecidos, vos pedimos.

Oração sobre as oferendas

Possam agradar-vos, Ó Deus, as oferendas apresentadas em honra de todos os santos. Certos de que eles já alcançaram a imortalidade, esperamos sua intercessão contínua pela nossa salvação. Por Cristo, nosso Senhor.

Oração depois da comunhão

Ao celebramos, ó Deus, todos os santos, nós vos adoramos e admiramos, porque só vós sois o Santo, e imploramos que a vossa graça nos santifique na plenitude do vosso amor, para que, desta mesa de peregrinos, passemos ao banquete do vosso reino. Por Cristo, nosso Senhor.

Fontes de Consultas e Pesquisas

Vamos expor a seguir, os nomes dos sites e blogs a que pertencem os textos que nos preenchem todos os dias com palavras inspiradas pelo Espírito Santo, nos dando um caminho com mais sabedoria, simplicidade e amor.

FONTE PRINCIPAL DE PESQUISA E INSPIRAÇÃO — “BÍBLIA SAGRADA”

O importante não é a pessoa que escreve, mas quem inspira essa pessoa a escrever.

O importante não é como se lê o que está escrito, mas como se age.

O importante não é sentar-se à direita ou a esquerda do Pai, mas sim, realizar o trabalho que ele nos pede.

Ter conhecimento não é ter sabedoria, sabedoria é saber compartilhar o conhecimento.

Encontro de amigos com Cristo

Liturgia Diária

A Palavra de Deus na vida

DomTotal.com

Paulinas

Homilia Diária

Evangelho Quotidiano

Evangeli.net

Liturgia Diária Comentada

RCC São Rafael

NPD Brasil

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